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Inácio Francisco Vieira. Um bom par de tênis para inaugurar a vida

00:00 | 24/12/2017


Fosse um entendimento, a vida, para seu Inácio, seria um caminho de altos e baixos, curvas e retas. De chão duro, a maior parte; às vezes de enfrentar chuva ou sol e tantas de doer quantas de superar a dor. A vida é igual chão de onde se voa, é só saber da chegada, pegar o embalo e ter alguém que grite: “Vai, você consegue!” - nem que seja um desconhecido ou você mesmo, quando o corpo já está crucificado e a alma se mantém. Seu Inácio entende assim, ele conta duas vidas.

[SAIBAMAIS]
A primeira, Inácio Francisco Vieira da Silva, 55 anos, operador de CD na logística de uma empresa e pedreiro nos fins de semana, resume que viveu em bares. Pai de três filhos, era a mulher, companheira dos últimos 22 anos, quem o acordava para o serviço do dia; e ele “sem coragem de trabalhar”. Seu Inácio reconhece: “Não tinha tempo pra família, só pros amigos. Achava que tinha muitos amigos, mas era ilusão”. E demarca: “No acidente, foi que eu fui ver”.
 

Há alguns anos, quando voltava do trabalho de bicicleta, da Aldeota ao Mondubim, onde mora, um carro lhe atravessou o caminho e as certezas na BR-116. “Só vi mesmo a pancada. Passei 22 dias em coma”, emenda seu Inácio.
 

Foram mais dois anos difíceis, reconstitui: acamado, sem trabalho, com um sobrepeso de quase 30 quilos (adquirido pela medicação), pressão alta, desmaios, “sistema nervoso abalado” e depressão. “Não conseguia dormir na cama, tudo rodava. Dormia no chão”.

 

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No acidente, seu Inácio perdeu massa encefálica e o andar. Salvou um pensamento: o de viver outra vida. “A partir do momento que o médico falou: se eu fosse você, mudava a data do seu nascimento. Porque esse negócio foi sério”, assinala. Foi da janela do Instituto Doutor José Frota (IJF) que seu Inácio divisou a outra vida: “Eu via o pessoal correndo (treinando para competições de corrida de rua), aí, um dia, eu disse: ainda vou correr, se Deus quiser!”.
 

Em seu segundo nascimento, foi preciso aprender a andar novamente. Muitas tentativas e fisioterapias o colocaram de pé. Meio tropo, como diz, ele começou a caminhar na praça do bairro até alcançar o ano de 2009, quando se iniciava na corrida de rua. Um percurso longo e que lhe exige disciplina e força de vontade até hoje.
 

Neste começo, aos 48 anos, ele treinava no horário do almoço, entre dois expedientes. A empresa onde trabalhava lhe deu o apoio inicial e, vencendo o tempo e o próprio corpo, seu Inácio competia, do Rio de Janeiro a Paris.
 

Ele não trabalha mais no grupo e, há cerca de cinco meses, treina em uma assessoria de corrida na Barra do Ceará. Segue firme nos sete dias de toda semana. “O treino começa 5 horas da manhã. Pego o (ônibus) corujão de 4 horas e vou inté o Terminal. De lá, pego outro inté a Barra... Às vezes, vou daqui pro trabalho correndo, dá 18 quilômetros, lá na Caucaia”, traça.
 

Seu Inácio faz um caminho diferente daquele antes do acidente. Curou-se do vício e encurtou a distância da família, conquista outros pensamentos: “O que foi mais difícil foi eu achar que não ia conseguir. Mas fui aos poucos, aos poucos... Ficava trêmula, as pernas. Tive que fazer muita fisioterapia pra recuperar os movimentos. Foi muito difícil, o começo”, ultrapassa.
 

As mais de 190 medalhas que enchem a pequena casa onde mora são os dias seguintes: cinco ou dez quilômetros, em circuitos de corridas de rua, mais dez meias maratonas e duas maratonas o levam a um novo mundo. “A viagem maior que eu tinha feito foi inté Sobral. Tinha o maior medo de avião! Mas, quando falou que era pra correr, acabou tudo. Viajei pra São Paulo só e enfrentei aquele aviãozão lá pra Paris!”, ri-se seu Inácio sobre a primeira maratona de que participou e que guarda em um quadro na parede.
 

Inaugurar a vida é possível em qualquer idade, ele afirma. Mas é preciso querer, com todas as forças. “Muita gente dizia que não ia conseguir, que ia voltar a beber, a fumar. Eu mostrei que não era desse jeito. Mudei a minha vida porque eu mesmo quis... Não foi fácil, eu cheguei ao fundo do poço. E subi”.
 

No seu entendimento simples, a vida é feito aquele caminho da corrida de rua. Pra frente é que se vai porque, em algum momento, tem a chegada. E, ao longo deste chão de altos e baixos, sempre há de aparecer alguém para emprestar forças, dizer um “vamos, você consegue!”, espelha seu Inácio: “Pessoas que, se você cair, para pra te levantar. Já teve corridas que eu tava disputando, vi pessoas caindo e parei. Ali não importava se ia ganhar, se ia chegar em primeiro. Importava ajudar. Porque eu já fui ajudado: tropecei, caí, o pessoal parava a corrida pra me ajudar”.
 

Uma “palavra de conforto” ou uma “vaquinha” para comprar o próximo tênis ou viajar têm ajudado seu Inácio em seus começos, ele agradece. E indica, a propósito: para todo começo é necessário, “em primeiro lugar, ter um bom par de tênis. E tem que começar aos poucos: caminhando, aí, vai aumentando pouco a pouco. E testar, respeitando os limites. Você não pode sair em disparada”. 

 

Um de meus começos foi ter coragem de viajar de avião. Um dia, decidi voar e, aos 30 anos, fiz minha primeira viagem internacional. Cruzei um oceano, de mãos dadas com a minha irmã. Desde então, não tenho mais medo do tamanho do mundo. 

 

Ana Mary C. Cavalcante

Reporter Especial

 

 

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