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Fátima dos Santos. Com Açúcar e ousadia

00:00 | 24/12/2017

Nenhum começo principia de uma indecisão. Pelo contrário. Eles quase sempre são forjados em alguma ousadia. Uma vontade de se fazer de novo, corrigir rumos e tentar o inesperado. Sem saber que chegar no futuro era, por si, um ato de coragem, Fátima dos Santos, 49 anos, decidiu se arriscar aos começos logo cedo. Por fim da força, subverteu o caminho de dor e sofrimento que a vida lhe imputara ainda na infância e tentou encontrar uma nova forma de existir, longe da família e de qualquer certeza.


[SAIBAMAIS]Ela era uma menina de oito anos quando quis deixar a casa em que vivia com os pais e os sete irmãos em Viçosa do Ceará para “trabalhar” na Capital. Naqueles tempos, não era estranho meninas do Interior serem despachadas para casas de família em Fortaleza fazendo as vezes de empregadas à custa de alguns agrados e auxílios. Foi a saída que Fátima encontrou para tapar os olhos e os ouvidos às agressões dos pais. “Os dois bebiam muito. Sempre tinha aquelas confusões de marido e mulher. Eu não gostava de bebida nem de passar necessidade. Sabia que precisava trabalhar”, refaz.
 

Menina, ela trocou a casa de taipa no afastado da serra por uma residência de azulejos em uma rua da pomposa Aldeota. Foi morar com uma senhora de meia-idade, sem marido ou filhos, que mantinha o sustento com a fabricação e a venda de bolos dentro da própria casa. Fátima haveria de ajudar nos afazeres cotidianos e também da feitura dos doces, mesmo que não soubesse tratar das massas, dos confeitos e nem de si mesma.

 

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“Tudo era diferente. As pessoas eram diferentes. Eu nunca me esqueci. Entrei, fiquei olhando e me perguntei: eu vou morar aqui?!”, espantou-se de início, mas sem tempo para dúvidas. Em pouco tempo já conhecia dos processos e fez-se boleira pela curiosidade. Aos 14 anos, amparada pela confiança da senhora e entregue à própria resignação, Fátima já tomava de conta da fábrica sozinha. Cuidava dos bolos ainda que, para isso, precisasse deixar a vida estacionada. Durante todo o tempo que esteve lá, não estudou, não viu o mar e não passeou pelo Centro da Cidade, como faziam as meninas de mesma idade. Os amigos que tinha, os poucos, eram os clientes que atalhavam conversa para além da venda e os funcionários do dia a dia.
 

As saídas, quando haviam, restringiam-se às missas no domingo, com hora para ir e voltar. Nunca passou pela cabeça dela, nem mesmo depois de cruzar a linha dos 20 anos, que pudesse encontrar um namorado que fosse. Nem no dia em que um rapaz lhe enviou a primeira paquera em forma de bilhete.
Ele trabalhava perto da casa e via Fátima sempre por entre formas, massas e biscoitos. Como resposta, ganhou o silêncio. “Eu tive medo. Escondia o bilhete para ela (a dona da casa) não ver”, conta. Em um dia qualquer, o rapaz dos bilhetes encontrou Fátima na porta de casa, emendou uma conversa e conseguiu convencê-la ao encontro às escondidas.
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Fátima contava 29 anos quando descobriu o amor. E ele a ensinou que não se pode viver na clandestinidade, soterrando vontades e guardando não-ditos. Acontece que o amor, quando ocorre, modifica quem nele se encosta e Fátima mudou suficientemente para acender as suspeitas da senhora.


Quando soube do namoro, a primeira atitude da dona da casa foi solicitar exames para investigar se a jovem ainda resguardava as purezas.
 

Para Fátima, foi humilhação e maltrato. Era como se a palavra, a confiança construída ao longo dos anos, de nada valesse. As duas amargaram dois meses de insatisfação, caras feias, até que a senhora chamou o ultimato. “Ela disse para eu decidir entre ele ou ela”, recorda. “Eu pedi um tempo para pensar. Precisava analisar com calma, mas ela disse que não me daria nem cinco minutos. Então, eu decidi sair da casa”.
 

De lá, levou só o que sabia dos bolos e os clientes. E foram eles que ajudaram nesse começo de Fátima. Juntos organizaram mutirão para comprar os primeiros materiais e, depois, os primeiros bolos. O namoro foi interrompido por cerca de três anos até que ela conseguisse organizar a vida recém-inaugurada. Quando se sentiu segura, restabeleceu a união da qual nasceram os quatro filhos. Hoje, eles ajudam, como podem, no comércio que mantém no Joaquim Távora.
 

Ainda é com bolos, rocamboles e delícias que ela garante o sustento do lar e os estudos dos filhos. Foi com o trabalho que também assistiu a mãe nos últimos anos de vida dentro da própria casa. Também não negou atenção e visitas à senhora da Aldeota, mesmo quando ela se mudou para uma casa de repouso por decisão dos sobrinhos.
 

Com a ousadia do inesperado, Fátima entendeu que não se pode adiar os começos. E, por isso mesmo, tratou de fabricar outro futuro mais recentemente. Notou que o casamento com o antigo marido estava lhe tolhendo a liberdade, como a senhora o fizera. Sem tempo para remorsos, ela encerrou a história. Da união, leva apenas os filhos, a vontade de seguir o trabalho e de viver outros começos, ainda incertos. “Na vida, a gente tem que tomar decisão própria. Saber o que quer, saber o que é certo e na hora certa”, ousa, ainda mais. 

 

Este ano, entre o susto e o arrepio, eu consegui espantar parte dos medos e inaugurar algumas primeiras vezes: fiz minha primeira viagem só; escalei um monólito; estive bem perto de uma rampa de voo livre sem nenhuma corda ou asa delta. Percebi que os começos se bastam e que o futuro é para amanhã. Talvez, essa seja a pista para outros inícios.  

 

Rômulo Costa

Reporter do Núcleo de Conjuntura

 

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