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Lava jato. O dia em que Moro foi vaiado por advogados

Política: Filiado ao PT, cearense que liderou movimento de protesto contra a presença do juiz paranaense em evento nacional de Procuradores Municipais justifica a ação e reforça críticas a Sergio

00:00 | 26/11/2017

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Ato contra o juiz federal Sergio Moro durante evento de advogados, em Curitiba, na última terça-feira, 21, ganhou repercussão nacional. As vaias ao magistrado responsável pelos julgamentos dos casos de 1ª instância da Operação Lava Jato, na palestra de abertura do XIV Congresso Brasileiro dos Procuradores Municipais (CBPM), foram encabeçadas pelo Coletivo Juristas pela Legalidade e pela Democracia do Ceará. Grupo que tem Guilherme Rodrigues, procurador municipal de Fortaleza, ente seus líderes.
 

No episódio, Guilherme conta que o coletivo – que já havia lançado manifesto uma semana antes do Congresso contra a presença de Moro – levou três faixas para a palestra, barradas pela segurança do local, o Teatro Ópera de Arame. A decisão de se utilizar de vaias, inicialmente descartada, virou alternativa.
 

Guilherme acusa tanto a organização do congresso - a Associação Nacional dos Procuradores Municipais (ANPM) -, quanto o juiz Sérgio Moro de serem “partidários”. Moro, em seu entendimento, desrespeita direitos da advocacia e sua presença num evento da classe explicitam a partidarização da organização.

O POVO - Por que vaiar o juiz Sergio Moro?
 

Guilherme Rodrigues - Porque o convite feito ao juiz, pela nossa associação, foi inapropriado. Para eu não vaiá-lo só precisava não estar no congresso. A decisão de convidá-lo foi equivocada. Não houve uma decisão da diretoria, da categoria, ou mesmo do Conselho Deliberativo, que são as instâncias da nossa entidade. Como foi a organização do evento que convidou sem convidar a diretoria, nós nos sentimos à vontade para fazer a manifestação. Mas tentamos contornar a situação. Se podia convidar o juiz Sergio Moro para fazer a abertura do evento, que encontrasse um nome para fazer um contraponto, apresentar uma outra visão. E sugerimos o nome do ministro Eugênio Aragão. Não fui vaiar porque queria, mas porque houve um desrespeito à minha categoria, no congresso de advogados públicos convidar um juiz polêmico que não respeita os direitos todos advogados, maltrata o devido processo legal, que se comporta como um inquisidor. Reconhecidamente por nós um juiz parcial, um juiz que usa a toga para fazer política, e isso é inadmissível. Isso desequilibra a política como um todo. Sem falar que os acusados, os réus, são seletivos, são realmente escolhidos. É inadmissível, uma vergonha compactuar com esse teatro midiático, com essa fúria de condenar sem o respeito ao devido processo legal. Nós estamos alimentando um monstro, no sentido de que a democracia está sofrendo.

OP - Então, com outro convidado “contrário” ao Sérgio Moro, não teria vaia?
 

Guilherme Rodrigues - De jeito nenhum. Muitos colegas não quiseram ir por isso, mas fiz questão de ir pra protestar. Mas se tivesse alguém com o contraponto seria uma coisa fantástica. Seriam dois pontos do argumento, duas visões.

OP - Mas a organização alega que não foi um “debate” para ter necessidade de contraponto, mas sim uma palestra, com tema técnico, voltado para prevenção como combate à corrupção. Terminada a palestra, a avaliação do senhor é que ela foi partidária ou não?
 

Guilherme Rodrigues - O simples convite já demonstrou que a organização já tomou partido, só em convidá-lo e recusar o contraponto. A figura dele já diz tudo. Convidou o Sérgio Moro, partidarizou. Ele já representa uma partidarização. Foi um teatro para aplaudi-lo. Ele tem declaradamente uma visão de condenar a esquerda, de reforçar essa campanha midiática, de construir um ambiente onde o réu já estaria condenado pela opinião pública, e com isso facilitar a condenação dele. Eu não posso concordar com a decisão do TRF-4 que disse que no caso do Moro, quando ele expôs aqueles áudios, sobre a conversa privada, do ex-presidente Lula (PT) e da Dilma (PT), como se fosse coisa normal. Isso é crime.

OP - Sérgio Moro não pode palestrar sozinho em eventos da advocacia, então? Isso não poderia ser encarado como tentativa de censura?
 

Guilherme Rodrigues - Acho que a entidade tem a liberdade de convidá-lo ou não. Se convidar, tem saber as consequências. Não fomos atendidos, e nos manifestamos. Não soa como tentativa de censura. Censura foi o que a organização tentou fazer tirando nossas faixas de protesto.

OP - O senhor é contra a Operação Lava Jato?
 

Guilherme Rodrigues - Do jeito que está estabelecida, sim. Nenhum cidadão de bem vai ser contra o combate à corrupção, lógico. Mas essa farsa aí onde se condena só um segmento, criminaliza a política de foram midiática, sou contra. Os problemas políticos devem ser resolvido dentro da política.

OP - Mas o que deve acontecer com ela? Toda a operação está comprometida e deve acabar?
 

Guilherme Rodrigues -Enquanto houver apuração séria, sem perseguição política, que se respeite a Constituição e o devido processo legal, deve continuar pautada nisso. Pode durar meses ou anos, o importante é que esteja correta, dentro dos trâmites legais.

OP - O senhor. é filiado ao Partidos dos Trabalhadores?
 

Guilherme Rodrigues - Sim, sou filiado.

OP - Não existe também interesse partidário – ou simples “partidarização – na manifestação do senhor também?
 

Guilherme Rodrigues - Não se pode dissociar uma coisa da outra. Todo cidadão que goza dos seus direitos políticos para exercer sua cidadania tem seu direito de se filiar ou não a um partido. Eu, particularmente, sou filiado. Não vejo nada de errado. Acho que não tem influência da filiação do meu partido. Estaria na agenda da mesma forma se não estivesse. O que está em jogo é nossa democracia.

DANIEL DUARTE

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