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Literatura. Uma escritora fora das margens

Cultura: Recém-lançado no Brasil, Frantumaglia reúne entrevistas, cartas e artigos da escritora Elena Ferrante, autora de A amiga genial e Dias de abandono

00:00 | 12/11/2017


Lágrimas de frantumaglia. Assim Elena Ferrante diz sobre a angústia da mãe, uma dor inominada só muito vagamente referida pela expressão dialetal de Nápoles. Uma agonia sem origem que a levava a abandonar as tarefas domésticas, esquecer o “fogão aceso, o molho queimando na panela”, dilacerada por forças opostas, e a falar sozinha pela casa, no meio da noite.
 

Frantumaglia, afirma a autora de A amiga genial, é uma herança materna, “mas já não é possível perguntar a minha mãe o que ela realmente queria dizer com essa palavra”. Sendo assim, Ferrante trata de lhe dar significado por conta própria, num esforço de definir o mal-estar, que depois ela mesma inoculará em suas personagens (Delia, Olga e Leda, um trio de mulheres que resistem, principalmente). “É uma paisagem instável”, escreve, “uma massa aérea ou aquática de destroços infinitos que se revelam ao eu, brutalmente, como sua verdadeira e única interioridade.” E acrescenta: “É o depósito do tempo sem a ordem de uma história (...). É o efeito da noção de perda”.
 

Não casualmente, Frantumaglia é o título do novo livro da escritora publicado no Brasil. Famosa no mundo inteiro depois da tetralogia napolitana, a italiana refaz na obra os caminhos de sua escrita a partir de artigos, entrevistas e cartas a seus editores e leitores, iluminando aspectos cruciais de sua produção, como a relação mãe-filha, mas também o processo de “desmarginação”, espécie de colapso emocional pelo qual as mulheres, ficcionais e reais, borram as próprias fronteiras. “Vi isso acontecer com a minha mãe, comigo e com várias amigas. Vivenciamos um excesso de vínculos que estrangulam desejos e ambições”, diz Ferrante numa carta.
 

No livro, a narradora ainda reafirma sucessivas vezes o pacto de anonimato que fez consigo mesma, repondo sempre a centralidade do escrito em detrimento da projeção da personalidade do autor. Faz isso já na carta enviada a sua editora no remoto 1991, ano em que estreia na literatura. A propósito da estratégia de divulgação de Um amor incômodo, seu primeiro romance, a autora é enfática: “Não pretendo fazer nada que pressuponha o comprometimento público de minha pessoa. Já fiz bastante por essa longa narrativa: eu a escrevi; se o livro for de algum valor, isso deve ser suficiente”.
 

Pelos anos seguintes e até hoje, não se sabe quem de fato está por trás do nome Elena Ferrante, salvo as fortes suspeitas, baseadas em investigação jornalística, de que se trata da tradutora Anita Raja, casada com o também escritor Domenico Starnone, cujo principal romance, Laços, acaba de chegar ao Brasil pela editora Todavia - o livro estabelece um diálogo íntimo com o universo ferrantiano, sobretudo com Dias de abandono, a ponto de o próprio Starnone ter se tornado suspeito de ser o rosto atrás da máscara literária.
 

Mas é dentro da linguagem, e não fora, que se deve procurar o mistério da escritora. Para o tradutor Maurício Santana Dias, que verteu ao português os quatro volumes da Série Napolitana, está-se diante de uma prosa que se destaca pelo “destemor com que a narrativa constrói e escava toda a gama de sentimentos humanos, dos mais nobres aos mais abjetos. E tudo isso numa linguagem cujo ritmo simula à perfeição o próprio ritmo da vida, privada e coletiva, o que acaba por produzir um forte efeito de presença”.
 

Tradutor de Frantumaglia e de outras três obras da autora, Marcello Lino concorda. De acordo com o pesquisador, Ferrante eviscera alguns temas recorrentes, como o “abandono, a cultura de Nápoles e do sul da Itália, as relações entre mulheres”, todos desenvolvidos em “um universo bastante variado de personagens femininas”.

HENRIQUE ARAÚJO

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