VERSÃO IMPRESSA

Editorial. Violência transmissível

"Quatro em cada 10 mulheres criadas em lares violentos sofrem o mesmo tipo de agressão na vida adulta"

00:00 | 26/11/2017

 
Experimenta-se um abalo a cada vez que estudos revelam algum aspecto da inaceitável violência que desaba sobre as mulheres nos mais diversos espaços da vida pública ou privada. Não é diferente com o estudo realizado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com o Instituto Maria da Penha e o Institute for Advanced Study in Toulouse, que, com a Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, mostrou que esses atos violentos repetem-se por gerações.

 

Segundo a pesquisa, quatro em cada 10 mulheres criadas em lares violentos relataram sofrer o mesmo tipo de violência na vida adulta. Ou seja, observou-se um padrão repetitivo, chamado pelos pesquisadores de transmissão intergeracional de violência doméstica. O mesmo índice impacta o comportamento masculino, revelando que homens criados em lares violentos também cometem agressões contra suas parceiras.

 

Para o professor José Raimundo Carvalho, coordenador da pesquisa, o estudo é um trabalho inédito, pois, pela primeira vez na América Latina, teria sido comprovada a repetição do comportamento violento entre as gerações. “Se nós conseguirmos diminuir a violência hoje, vamos não só melhorar a vida das mulheres que estão vivendo agora, como também das pessoas que viverão daqui a 15, 20 anos”, observa ele.

 

Outro dado aterrador da pesquisa: 6,2% das mulheres entrevistadas, que estiveram grávidas, sofreram violência durante o período de gestação. Natal, Salvador, Recife e Fortaleza apresentam taxas maiores que a média das cidades pesquisadas.

 

O problema maior para se combater esse tipo de violência é que, em boa parte das vezes, as agressões acabam sendo abafadas dentro do próprio lar, pois as mulheres, por temor físico ou medo de se ver ao desamparo, quando o homem é o único provedor da casa, acabam por não denunciar o crime cometido contra elas.

 

No entanto, há de se pensar como a farmacêutica Maria da Penha, fundadora do instituto que leva o seu nome: essa não é uma questão que diz respeito somente às mulheres e sua famílias, mas é uma situação a ser debatida amplamente por toda a sociedade. A pesquisa é um ótimo instrumento para analisar e tornar o problema conhecido, mas, depois disso, é preciso também ações concretas, que possam transformar essa realidade.

 

ADRIANO NOGUEIRA

TAGS