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Dois dedos de prosa com Gabriel Estrela

00:00 | 26/11/2017
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Os discursos em relação à prevenção e ao tratamento do HIV/aids precisam deixar de ser imperativos e devem pensar — ainda mais — na possibilidade de escolha das pessoas. Quem defende isso é o ator, ativista e youtuber que vive com o Vírus da Imunodeficiência Adquirida (HIV) há sete anos. Mais recentemente, por meio de um canal no Youtube denominado Boa Sorte, o jovem de 25 anos contempla discussões importantes sobre o universo das pessoas soropositivas. Com mais de 19 mil inscritos e quase 470 mil visualizações, o canal — que surgiu de um espetáculo — existe como um novo jeito de conversar sobre HIV: sem medo e com muita informação e clareza.


“Prevenção combinada do HIV significa oferecer escolhas”


OPOVO - Vivemos uma situação de disparidade muito grande: a evolução rápida das tecnologias de tratamento e prevenção do HIV, mas com dificuldade de acesso. Por que esse cenário?


Gabriel - A gente tenta muito chegar num novo capítulo da história da epidemia, mas é muito difícil começar um novo sem terminar o anterior. A gente tem sim um tratamento que avançou muito, novas tecnologias de prevenção, qualidade de vida, pessoas que venceram o estigma, relacionamentos sorodiferentes (quando uma pessoa tem HIV e a outra não) funcionando super bem. Mas ainda tem pessoas que não conseguem acessar o medicamento, que, por preconceito, descobrem tarde, que morrem em decorrência da aids... Tem lugares em que o desafio de acesso à saúde segura as pessoas que vivem com HIV nos anos 1990.

OP - Um dos discursos que você mais defende é o da prevenção, e, especificamente, das outras formas de prevenção - não só a camisinha. Por que falamos pouco nelas?


Gabriel
- A vantagem de falar sobre outras opções de prevenção é que a gente tem uma diversidade de ferramentas e estratégias para fazer essa prevenção dar certo. Quanto mais diversidade a gente tiver de possibilidades de prevenção, maior a chance que a gente tem de alcançar as pessoas. As pessoas não entendem que a prevenção combinada significa oferecer escolhas. Elas acham que significa dizer “não use camisinha”. O que a gente quer fazer é sair do imperativo. O único imperativo que pode existir sobre prevenção é: pense sobre prevenção, converse sobre prevenção e cada um faz a sua escolha.

OP - Com o canal no Youtube, o que mudou?


Gabriel - Falar sobre HIV é meu dia. Era algo que podia ser muito ruim que eu consegui fazer com que fosse muito bom. Eu consigo ajudar muita gente. Eu estudo pra caramba, preparo palestras. Além disso, consigo trabalhar com arte, e isso é um privilégio. Ser um artista assumidamente gay é difícil, quem dirá falando sobre HIV, falando sobre sexo.

OP
- Quais os novos desafios? Eles são antigos ou são novos mesmo?


Gabriel - A gente vence muita coisa, mas a gente ainda carrega muita coisa. O nosso desafio hoje tem muito a ver, do ponto de vista estrutural, com o desmanche da saúde.

OP - Você considera que o HIV te deixa com alguma limitação?


Gabriel - Cara, eu não tenho limitação nenhuma. Eu acho muito engraçado a gente pensar nas questões relativas à saúde de quem vive com o HIV como uma limitação. Não existem limitações porque a gente está falando de escolhas. É desesperador, mas ninguém é obrigado a tomar medicamento, ninguém é obrigado nem a fazer o teste. Se a gente não conseguir promover nas pessoas o sentimento de que ir em busca de saúde ainda é um investimento que vale a muito à pena, a gente vai continuar falhando.

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Veja Gabriel no Youtube https://bit.ly/gabrielestrela 

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