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Artigo. O sentido do presente

O presente é uma linguagem. Por isso, ele se apresenta coberto de signos: o objeto escolhido, a embalagem, a dedicatória, tudo significa

00:00 | 12/11/2017


Quando se inicia novembro, não sei se porque é o mês do meu aniversário ou o início da publicidade e comemorações natalinas, entro naquele estado melancólico, pensativo e filosófico, muitas vezes chamado de inferno astral. O homem é um ser de rituais, isso é antropológico. Há ritos para o nascimento, para os diversos momentos da vida e para a morte. Nosso aniversário assim como o Natal são momentos em que ritualisticamente nos reunimos em família e com amigos, para os abraços, os perdões e troca de presentes. Essas datas tornam-se motivo em torno do qual as pessoas exercitam maior aproximação, maior democracia de gestos e emoções, reunindo as pessoas que se querem mais próximas. O ritual encenado, o jantar, as preces, as luzes, os presentes servem a este fim.
 

Receio que tenhamos deslizado do ritual para o consumo, do antropológico para o comercial. A vida moderna parece conspirar para isso. Há uma sedução generalizada do comércio que objetiva vender, lucrar, em meio a gentis e sofisticadas promessas de alegria, prazer e felicidade. Uma maresia de nosso espírito crítico nos impede de perceber a manipulação e os encantos do mercado.
 

O que significará esse afã natalino de comprar, consumir e doar presentes? Estaremos dando e doando de fato? O sentido do presente que ofertamos é que ele leve até o outro um pouco de nós mesmos. Isso quer dizer que a “coisa escolhida” precisa transportar, simbolizar o afeto, a apreciação que tenho pelo outro. O presente é uma linguagem. Por isso, ele se apresenta coberto de signos: o objeto escolhido, a embalagem, a dedicatória, tudo significa, tudo veicula esse pedaço de mim que quero ofertar.
 

O tempo destas comemorações nos convoca, sensibiliza-nos, solidariza-nos. Em meios às emoções, somos lembrados em nossos sonhos infantis. As lojas estão lindamente enfeitadas de esperanças. Penso que não vale só dar um presente, mas ligar, falar, ouvir a voz e ouvir de alguém que é bom saber que ele existe. Com o advento das redes sociais, recebemos muitas mensagens e poucos abraços.
 

Outro dia, ouvi um adolescente dizer que telefonar é quase uma declaração de amor e que marcar um encontro ao vivo equivale a um pedido de namoro! Há na contemporaneidade uma mística de autossuficiência, uma vontade de que a dependência dos outros seja cada vez menor, de que o outro não importa ao bem-estar. Isso tem sérias consequências, pois, se o outro deixa de ser importante para minha felicidade, decerto, sua felicidade também deixa de ser importante para mim.

 

Zenilce Bruno
zenilcebruno@uol.com.br
Psicóloga, sexóloga, pedagoga

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