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Jornal

Íntegra da entrevista com Renata Jereissati

15/10/2017 01:00:00
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“O artesanato toca o coração da gente”

O envolvimento de Renata Jereissati com o artesanato cearense começou há 20 anos quando foi primeira-dama do Estado, no segundo dos três governos do marido Tasso Jereissati. Ao O POVO, ela conta sobre a essência do trabalho que realizou no passado e a motivação para trazer artesãos cearenses ao projeto que desenvolve desde 2015 no Iguatemi: a Loja do Bem. Na última quinta-feira, o espaço na área de expansão do shopping foi reinaugurado com peças de 15 associações de artesãos cearenses. Uma enorme variedade vendida a preço de custo para incentivar o escoamento da produção. Encantada pelo valor de arte que o artesanato tem, Renata fala sobre a origem do projeto, o engajamento na causa e o consumo de peças, que como ela mesma diz, traduzem a cultura do Ceará.

O POVO – Como surgiu o projeto da Loja do Bem?
Renata Jereissati –
Este é um projeto do Shopping Iguatemi. Desde 2015 a gente separou uma loja para ajudar instituições carentes. No primeiro ano foi para a Irmã Conceição, que cuida de crianças doentes, no segundo ano para a Instituição Peter Pan e a irmã Inês, que cuida de moradores de rua. Este ano, por acaso, assisti a uma reportagem na televisão que me deixou muito triste, dizia que o artesanato cearense estava em crise. Era uma repórter na Prainha conversando com as rendeiras e artesãs que diziam que não tinham apoio, estavam sozinhas, que não viam futuro. A aquilo me cortou o coração. Aqui no Iguatemi, pelo menos duas vezes por ano, a gente faz eventos nas praças, chamamos artesãos que trabalharam comigo no passado. Mas aquela reportagem ficou na minha cabeça, eu não estava feliz, porque há 20 anos eu me dediquei muito ao artesanato cearense, é uma área que envolve muita gente, muita mão de obra, muitas mulheres, 70 a 80% das artesãs são mulheres. É uma atividade que permite que essas pessoas possam viver em seus distritos, ter qualidade de vida, produzir e vender, uma coisa natural nossa. Não temos que inventar, as pessoas têm essa arte como delas. Este ano, em agosto a gente fez um evento no Iguatemi, a Feira de Artesanias. Chamamos alguns grupos, mas achei que não era o suficiente. Sempre que eu passava no JK (Iguatemi, em São Paulo) eu via a loja Artiz, ligada a artesanato solidário, projeto criado pela dona Ruth Cardoso, na época em que ela foi primeira dama. E o Ceará era o modelo.

 

A gente estava tão na frente que os projetos a nível federal copiavam a maneira que a gente ia trabalhando nessa área. Hoje, em São Paulo, essa loja funciona dentro do JK e pensei que a gente deveria fazer alguma coisa assim. No encontro Artesanias, a Ethel Whitehurst participou com a loja dela e juntou as ideias com a Sonia Quintela, que cuida da Artiz e é esposa do filho do maestro Eleazar de Carvalho, que é cearense. Coincidentemente elas fazem parte de um grupo chamado Mulheres do Brasil, junto com a Luiza Trajano, e nos encontramos. Decidimos fazer a Loja do Bem deste ano para ajudar o artesão, ele também precisa de um empurrão, de uma ajuda. Em menos de um mês conseguimos reunir as artesãs. A Ethel vem trabalhando com essas mulheres na Prainha há uns dois ou três meses. Mas ver na televisão a reportagem, em maio, sobre a crise no artesanato me deixou muito triste. Eu pensei: puxa, vida, não acredito! Tanto esforço, tanto trabalho, tanta dedicação pra depois a gente largar uma coisa que ajuda tanta gente no Ceará como um todo, porque a gente tem uma diversidade enorme de artesanato. Então está aqui. Este espaço está separado para os artesãos usarem. Este mês tem 15 associações com produtos como tecelagem, renda, palha, barro, couro. Em novembro serão outras tipologias e outros grupos. Vamos ver se a gente vende bem, porque é onde o problema do artesão surge, não têm como escoar a produção, porque moram longe, às vezes entra o atravessador que aumenta o preço, então aqui é direto do artesão, com preços sem interferência de atravessador.

OP - Em que o artesanato cearense se diferencia do que é produzido no restante do País?
Renata –
Em primeiro lugar pela diversidade. No Estado inteiro você tem trabalhos de tipologias distintas, você vai para o Cariri e tem o barro, couro, a palha de milho, nas praias você tem o labirinto, as rendas são muito fortes, no Aquiraz, Acaraú, tem a tecelagem em Sobral, as redes e crochês e região central. É rico, é diverso. Segundo, que são nossas riquezas, faz parte da nossa cultura, nossa história particular, e se a gente não abrir os olhos pra isso, fica tudo muito igual com essa globalização. E é chato, tudo muito igual, né? (risos). A gente tem que cultivar. Essas diferenças são nossas, são do cearense, temos que dar valor, dizer pro artesão que é lindo o que ele faz e ajudar na atualização, na modernização, sem ferir. Não precisa parar no tempo, tem que criar coisas que sejam de interesse, que entrem na moda, seja a pela cor, por um detalhe. Temos que atualizar e dar valor. É uma coisa forte do Ceará, além de ser uma forma de distribuir renda, de forma honesta, justa, porque as pessoas estão ali produzindo. É uma área que envolve quase o Estado todo.

OP – Quais seriam as estratégias efetivas para os artesãos se atualizarem, escoar a produção. Como sofisticar essa cadeia produtiva do artesanato?
Renata –
No passado eu tinha condições de trabalhar com isso de forma mais direta, quando o Tasso foi governador. Tanto que o livro Ceará Feito a Mão é de 20 anos atrás. Fizemos uma pesquisa onde tinham os diferentes artesanatos, qual era essa população, localizamos as regiões de forte produção no Estado, o que produziam e, trabalhamos junto ao Sebrae, a valorização da produção. Naquele momento a minha preocupação era inovar, treinar para um acabamento qualificado. Fizemos um trabalho legal de chamar alguns instrutores, designers que muitas vezes eram voluntários nessas ações, como dona Guiomar Marinho, a Ethel Whitehurst, Perpétua, Maurício Cals. Foram ensinar a fazer coleções que as pessoas tinham vontade de consumir. E o Sebrae os capacitou para se organizarem enquanto associações e terem um preço de mercado competitivo, comprar matéria-prima em conjunto.

 

O governo entrava com a distribuição, criou o Ceart, a loja do aeroporto, a loja do Dragão do Mar. Foi todo um processo de trabalho tanto para qualificar o artesão para ele entender melhor o processo de produção dele, quanto para ele entender o sentido do negócio. O artesão é artista, mas não sabe como chegar ao consumidor. Esse foi o trabalho que o Governo do Estado fez naquela época e é isso que a gente sempre tem que fazer. Creio que é necessário retomar essas áreas de atuação, agora não tenho nenhum envolvimento com o Governo, estou fazendo como cidadã que acredita. Esse processo não pode parar, porque se parar não é bom para um número muito grande da população do Ceará. Infelizmente a gente teve um processo de andar um pouco pra trás com essas bolsas famílias que vieram, fizeram com que muitos deles achassem que não precisavam trabalhar porque já recebiam, houve um desestímulo da produção a nível até de Brasil inteiro. Então a gente tem que de novo mostrar que o trabalho é vital, aquilo tem um valor. E você deve se valorizar por aquilo, o artesão, muitas vezes, não tem autoestima. Se a gente não continuar valorizando, isso vai deixar de existir. Todo mundo pode ajudar comprando, dando de presente. Temos que juntar as mãos e dar valor ao que é da gente, do Ceará.

OP - O que a senhora consome do artesanato cearense?
Renata -
Quase tudo. Paninhos de bandeja, centro de mesa, almofadinhas, esse conjunto de barro do Seu Muniz para feijoada, as coisas do Seu Expedito, os banquinhos. O Tasso comprou um jibão do Seu Expedito e colocamos na parede, está lindo. Tenho muita coisa da arte popular do Cariri, esculturas de madeiras. Sempre gostei. Gosto de conhecer a cultura dos lugares e, através do artesanato, você está conhecendo um povo. Aquele país, aquela gente. O México, por exemplo, tem um artesanato lindo. Ou em prata ou em bordados como nas roupas da Frida Kahlo. Tanto o que tem aqui como o que tem fora, eu sempre gostei. Acho muito legal o que faz parte das origens dos povos. Na minha casa eu uso, tanto o que compro aqui como o que compro fora.

OP – A senhora falou em incentivar a cadeia consumindo, presenteando. Há uma delicadeza especial em presentar com o artesanato?
Renata –
Com certeza. Pode até não ser algo tão caro, mas só o fato de você ter olhado uma peça, ter se sensibilizado e lembrado daquela pessoa é importante. Não precisa ser caro. Artesanato é aquela coisa com a qual você se emocionou, ou porque achou bonita a cor ou o desenho. É arte. Você não olha para o quadro, ouve uma música e se emociona? O artesanato também toca o coração da gente.

 

 

Paula Lima

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