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Jornal

A Conta da "pacificação" chegou

08/10/2017 00:00:00
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Reproduzindo arranjo nacional firmado entre as maiores facções do País — Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) — o anúncio chegou na forma de um “salve”, assinado pelo “Crime do Ceará”, ainda em janeiro de 2016. Ordenava um “cessar fogo” nas penitenciárias do Estado, assim como ocorrera noutros presídios do Norte e Nordeste.
 

Bem sucedido, o armistício avançou sobre comunidades de Fortaleza dominadas por facções rivais, que disputavam territórios para o tráfico de drogas. Não demorou e as estatísticas de homicídios entraram em queda. À época, os acertos foram mostrados pelo O POVO. O Governo negava a existência do “consórcio” criminoso. Nos dias que se seguiram, mês após mês, os assassinatos diminuíram. 

 

No fim do ano, houve redução de 39% na Capital e 15,2% no Ceará.  O Estado vinha de queda de 9,5%, em 2015, com relação a 2014. Os números denotavam anormalidade.
 

Até que, um ano depois, a “convivência harmoniosa” em presídios e comunidades teve fim. Influenciada pela mesma conjuntura nacional, desta vez na forma de um desarranjo, a pactuação que serviu para aquisição de armas e drogas, além do controle de rotas para o tráfico, ruiu. Veio o segundo “salve”.
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Desta vez, a ordem era executar todos os rivais. Chegava ao fim o acordo de proteção mútua entre faccionários nas penitenciárias. O desacordo ganhou ares de emergência nacional e repercutiu mundialmente quando 56 presos foram assassinados em complexo penitenciário de Manaus, no primeiro dia de 2017. Na mesma semana, novo massacre terminou com 33 detentos mortos em Roraima.
 

A trégua teve seu preço. Sob a égide do pacto de não agressão, as facções se tornaram mais organizadas, elevaram o poder de fogo e ganharam capilaridade. Quando a guerra foi retomada, viu-se o reflexo da nova realidade. Os homicídios subiram a níveis ainda maiores que os anteriores à “pacificação” e passaram a ter componentes de tortura e banalidade pouco recorrentes no Estado.  

 

O direito de ir e vir que, mesmo enviesado, havia sido comemorado  com foguetórios nas periferias, foi novamente usurpado.

 

Hoje com média mensal de 410 homicídios, o Ceará caminha para ter o ano mais violento da história. De janeiro a setembro, 3.696 pessoas foram assassinadas no Estado. Mantendo o ritmo, a expectativa é que o ano termine com, pelo menos, 4.925 vítimas.
 

Para aprofundar o debate sobre a barbárie nas comunidades de Fortaleza e discutir alternativas, O POVO dá início hoje à série de reportagens Guerra dos Territórios. Revelaremos o drama da violência sob a perspectiva das periferias e novos sintomas de que o pacto entre facções contribuiu, de maneira considerável, para queda e posterior aumento dos homicídios no Ceará.
 

SAIBA MAIS
 

O POVO solicitou à Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) o mapeamento dos territórios disputados por facções criminosas. Entretanto, por meio da Polícia Civil, a pasta informou que não divulga o detalhamento das “ações ou planejamentos estratégicos”, pois a medida poderia oferecer “risco” ao trabalho policial.

As alianças e posteriores confrontos entre facções rivais vêm sendo acompanhadas pelo O POVO desde janeiro de 2016. Antes, ainda em agosto de 2015, a coluna Segurança Pública, assinada pelo jornalista e pesquisador da Segurança Pública Ricardo Moura, havia alertado para a existência de conversas entre traficantes, que pretendiam instalar uma “paz consentida” nas
comunidades cearenses.

À época, o governador Camilo Santana (PT) negou a existência das alianças e refutou a possibilidade de que a redução nos homicídios estivesse relacionada aos pactos. O discurso foi endossado pelo então secretário da Segurança Delci Teixeira.

Entretanto, em abril de 2016, durante a operação Vera Pax (Verdadeira Paz), o Ministério Público do Ceará (MPCE) prendeu dez membros de organizações criminosas que haviam instaurado uma trégua no bairro Vicente Pinzon. O órgão investigou e comprovou a “pacificação” de comunidades, cujo objetivo era a consolidação do tráfico de drogas.

Além das facções
Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e Guardiões do Estado (GDE), as outras facções com atuação mais intensa no Ceará são a Família do Norte (FDN), criada na Região Norte, e o Sindicato do Crime, do Rio Grande do Norte, com atuação no Litoral Leste do Ceará, em municípios como Aracati. 

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