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Geopark Araripe. 1000 fosséis à espera de repatriação

O rasto de um fóssil de pterossauro, traficado do Cariri e anunciado os EUA, resultou na descoberta de pelo menos mil peças em um depósito clandestino na França

00:00 | 03/09/2017

Fósseis do acervo do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri FOTOS TATIANA FORTES
Fósseis do acervo do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri FOTOS TATIANA FORTES
Uma busca e apreensão em uma empresa no município francês de Charleville-Méziéres, na região de Champanha-Ardenas, acabou surpreendendo policiais da Interpol e autoridades brasileiras. Por uma ação do governo Francês, resultado de uma parceria internacional e uma investigação tocada pela Procuradoria da República em Juazeiro do Norte, no Ceará, descobriu-se um depósito clandestino com pelo menos mil fósseis oriundos da Bacia do Araripe.

A investigação inicial do procurador federal Celso Costa Lima Verde Leal mirava apenas (e já era grave) a repatriação de um esqueleto quase completo do fóssil de um pterossauro extraído do subsolo do Geopark Araripe, no cariri cearense, em data não informada no processo.

Celso Lima Verde conta, no inquérito civil 1.15.002.000566/2014-47, que, graças a uma denúncia da paleontóloga brasileira Taíssa Rodrigues Marques, da Universidade Federal do Espírito Santos, se conseguiu chegar a um esquema internacional de tráfico de fósseis. O Ceará era a fonte. Os Estados Unidos e a França, os destinos dos negócios ilegais.

A pesquisadora Taissa Rodrigues, navegando pela web, se deparou com o anúncio do site americano www.eBay.com oferecendo o fóssil do pterossauro do Cariri por U$ 248.900,00.

O eBay, com sede na cidade de San Jose no estado da Califórnia, estava vendendo a pedra fossilizada de um animal pré-histórico alado de mais de 100 milhões de anos. A peça, porém, estava numa empresa na Europa, no município de Charleville Méziéres.

O pterossauro fossilizado, segundo o rasto da investigação e de informações do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, no Ceará, havia saído do Brasil. Provas na mão, o procurador Celso Lima Verde pediu à “Interpol que incluísse o fóssil contrabandeado na lista de difusão branca e que o adido na França levantasse e confirmasse o local de funcionamento” da loja anunciante.

O dono do comércio em Charleville Mézières foi ouvido por autoridades francesas, mas não revelou que tinha uma “jazida” de fósseis da Bacia do Araripe nas dependências do empreendimento criminoso. Apreendido o pterossauro e o material científico, a Procuradoria da República de Juazeiro do Norte aguarda a conclusão de um acordo para a repatriação de um patrimônio caro ao Geopark Araripe.

Em princípio, os fósseis deverão seguir para o Museu de Paleontologia de Santana do Cariri e outros equipamentos do Geopark Araripe. Mas, de acordo com o procurador, diante a grande quantidades de peças é possível que outras instituições no Brasil recebam parte da carga. “Será preciso discutir alternativas, com possibilidade de destinação de parte dos fósseis para outras entidades pública”, explicou Celso Lima Verde. Itália e japão

Outro processo de repatriação de fósseis para o Geopark Araripe, em andamento na Procuradoria da República em Juazeiro, quer trazer da Itália e do Japão um pterossauro e uma tartaruga, respectivamente.

Celso Lima Verde chegou às duas peças,porque o Boletim da Sociedade Paleontológica Italiana deu notícia de que cientistas estrangeiros haviam descrito o Cearadactylo Ligabuei Dalla Vêchia 1993 (pterossauro) e a Santanachelys Gaffneyi Hirayama 1998 (tartaruga). O primeiro depositado no Centro Studi e Recherche Ligabue, em Veneza. E o outro na Universidade japonesa de Teikyo Heisei.

O inquérito civil público 1.15.002.000177/2007 tenta, há dez anos, convencer os governos italiano e japonês de que os fósseis foram traficados do Cariri cearense para a Europa e Ásia. Atualmente, a Procuradoria aguarda resposta de um pedido de assistência jurídica com Itália e o envio da mesma demanda para o Japão.

DEMITRI TúLIO