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Teatro Carlos Câmara. Alternativo e subversivo

Cultura: De reduto da efervescência cultural a cenário de abandono, a história do antigo "Teatro da Emcetur" é símbolo de diferentes fases do Centro de Fortaleza

26/08/2017 17:00:00
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O clima era de tensão entre os membros da Comédia Cearense naquele sábado, 5 de outubro de 1974. A companhia iria apresentar o espetáculo O Morro do Ouro, texto do cearense Eduardo Campos, na inauguração do Teatro da Emcetur, no Centro da Capital. Um dos artistas, porém, alegando “razões de saúde”, se recusou a entrar em cena. Coube ao ator Ricardo Guilherme substitui-lo às pressas. Só depois de passado o aperreio, o hoje importante teatrólogo cearense se deu conta de que tinha sido, no susto, o primeiro ator a subir ao palco daquele que, anos mais tarde, seria rebatizado – por iniciativa dele próprio – como Teatro Carlos Câmara.
[SAIBAMAIS] 

Construído durante o governo de César Cals (1926-1991), que era militar, a inauguração foi cheia de pompa,com a presença de ministros do então presidente Ernesto Geisel (1907 - 1996). O que o regime militar não previa era que aquele espaço se tornaria, até 1989, um equipamento público de portas abertas para a arte contestadora. “A Cidade precisava de um teatro de menor porte e, apesar de desde o começo ter sido um palco tradicional – italiano com essa relação palco/plateia –, o espaço recebeu espetáculos mais ousados, com novas experiências sensoriais e peças politicamente engajadas”, recorda Ricardo.
 

Criado como alternativa às proporções monumentais do Theatro José de Alencar (TJA), o “teatro de bolso” (com capacidade para até 300 pessoas) foi pensado para abrigar principalmente montagens locais – enquanto o TJA receberia os grupos de fora que chegavam aqui com seus enormes cenários trazidos em navios. “A pauta do TJA era muito cara. As chances de ensaios naquela casa eram ‘impossíveis’.   

 

Saudávamos a abertura de novas casas de espetáculo. O Carlos Câmara foi algo muito bom para os grupos amadores”, reconstrói o jornalista e pesquisador Gilmar de Carvalho, cuja dramaturgia Leste Oeste Side Story foi apresentada no local em montagem do Grupo Balaio.
 

“Escondido” em meio ao Centro de Turismo do Ceará (Emcetur), espaço comercial criado no prédio da antiga Cadeia Pública de Fortaleza, o teatro era frequentado por comerciantes e turistas, mas não só. “O espaço funcionava de noite até mais tarde e iam a classe estudantil, os professores, os intelectuais. Era um teatro de peças cabeças e que recebia os grupos considerados subversivos, porque no TJA a gente não entrava de jeito nenhum, ia era preso”, conta o teatrólogo Oswald Barroso, que se apresentou no teatro de bolso com o seu Grupo Independente de Teatro Amador, o Grita.
 

Palco também para a música, a dança e para eventos políticos, o  prédio foi símbolo de um Centro vivo. “Era um momento de muita efervescência nas artes do Ceará. O Centro era o grande bairro que todo mundo frequentava”, rememora Fernando Piancó, atual diretor do equipamento, que lamenta: “Mas com a expansão da Cidade, o Centro foi largado”. Nessa conjuntura de expansão da Capital, o ainda Teatro da Emcetur foi perdendo olhares na segunda metade da década de 1980. A falta de manutenção da infraestrutura levou ao gradativo fechamento do local, no início da década de 1990.
 

Os desafios
Outrora vivo e plural, o teatro passou mais de 20 anos fechado – com diferentes órgãos governamentais divergindo sobre de quem era a responsabilidade. Nesse meio tempo, saiu do papel a mudança de nome sugerida por Ricardo Guilherme para homenagear o dramaturgo Carlos Câmara (1881 – 1939). Em 2012 o teatro reabriu as portas, reformado e rebatizado mas demorou até 2014 para recomeçar a funcionar e até hoje ele segue em luta para se firmar como um “oásis” de cultura em meio às questões sociais e urbanas do Centro. “É preciso angariar público. O Carlos Câmara tem esse trabalho a fazer, é preciso muito investimento, não só financeiro, mas de ações culturais e sociais” avalia Piancó.
 

Apesar dos desafios de ocupação, o diretor é otimista. “Há um processo paulatino com ações para que o Centro volte a ser sedutor. O Carlos Câmara é um vetor de contribuição para requalificação do bairro”. A programação tem sido executada a partir de chamadas públicas, modelo em que o setor público cede o espaço para grupos artísticos através de um edital. Grupos teatrais como o Pavilhão da Magnólia e o Teatro Máquina já cuidaram do local. Quem vai assumir agora é o Coletivo Gera, que congrega três grupos de jovens das periferias – o Natora (do Carlito Pamplona), Ocupa cajueiro (do Dendê) e o Servilost (do Serviluz). “O Coletivo vai trazer uma galera diferente que vai gerar muita coisa bacana’, confia Fernando, já ansioso para o início da ocupação artística, que começa em setembro próximo.

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