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Jornal

Cleto B. Pontes. Mente aberta

26/08/2017 17:00:00

 

Cleto B. Pontes
cletopontes@uol.com.br
Psiquiatra

Open Mind foi um interessante evento ocorrido em São Paulo no fim da semana passada, em meio a uma centena de colegas do Brasil e de outros países da América do Sul. Os palestrantes foram paulistanos, obviamente, e também colegas de outros países considerados primeiro mundo. O objetivo principal era o pré-lançamento de um tratamento da esquizofrenia, com a tomada de remédio quatro vezes ao ano. O mais animador foi a promessa do laboratório patrocinador que em três anos poderemos controlar os sintomas deste transtorno psíquico com apenas duas injeções anuais. Algo fantástico para mim, apaixonado pela psiquiatria há mais de quatro décadas.

 

De fato muito coisa mudou desde quando eu, estudante, sonhava ser psiquiatra, como os colegas de turma Airton Monte e Cesar Lincoln. O primeiro foi até auxiliar de enfermagem na Casa de Repouso Nosso Lar, antes de entrar no curso de Medicina, prédio praticamente fundo correspondente ao de sua casa. O segundo, o Cesão, como carinhosamente o denominávamos, era um devorador de livros, mas, como casou cedo, além de estudar, tinha que dar aulas para o sustento da família. Mesmo assim, o danado achava tempo para estudar Filosofia à noite no Seminário da Prainha, e assim mantivemos esse ritual nos dois primeiros anos do curso de Medicina. Eu, ainda solteiro, tinha paixão acendrada pela psiquiatria hospitalar. De dia, na faculdade; à noite, no plantão. Lembro-me de cenas surreais, como o de aplacar sintomas psicóticos agudos e suas decorrentes convulsões com insulina ou eletricidade (ECT). Não se cogitava de reabilitar e muito menos de curar paciente esquizofrênico.

 

No posto de enfermagem havia um copo de cachaça que, de primeira vez, casou-me espanto: para que serve? O auxiliar de enfermagem veterano peremptoriamente respondeu: para fazer o desmame gradativo a fim de de evitar convulsão ou Delirium Tremens. O alemão Karl Jasper trocou a psiquiatria pela filosofia por não suportar o paciente psiquiátrico. Ao contrário, o meu afeto de alienista era uma espécie de ímã com o paciente, embora houvesse em mente de forma subliminar, uma espécie de fusão entre a ideologia psiquiátrica e o regime militar instalado no país após o Golpe de 64. Em noites de plantão, às vezes, a angústia me tirava o ar como imaginariamente em um campo de concentração nazista. Como a loucura está no cerne da razão e a função precípua da segunda é “pastorar” a primeira, o meu olhar e o dos pacientes hospitalizados foram fundamentais para o meu entendimento de que a psiquiatria é constituída de ciências alicerçadas em uma forte formação humanística. Hoje vivemos o delírio das neurociências nas quais o mistério da loucura se encontra nos neurônios e nas fendas sinápticas. Verdade e mentira são irmãs gêmeas, uma precisa da outra. Voltaire, pensador francês, dizia que não acreditava em Deus, mas não queria que o seu servo soubesse da sua verdade, temendo ser assassinado na calada da noite.

 

Congressos, simpósios e outros eventos na minha área são salutares, pois revigoram o afeto no reencontro de colegas e nutrem minha insaciável vontade de desvendar os mistérios da mente humana que, infelizmente, não se apresenta de forma linear. O interesse pelo poder em detrimento do saber tende a prevalecer, algo irracional que denota um certa mesquinhez e narcisismo do ser humano. Mesmo assim, não abro mão da fé no exercício e missão da psiquiatria, que requer constante posicionamento epistemológico, ou seja, além do saber fazer, questionarmo-nos continuamente sobre aquilo que estamos fazendo.

 

Adriano Nogueira

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