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Centro. A vida no comércio Histórias

As relações com o comércio e o tempo, narradas por funcionários mais antigos de uma tradicional loja de tecidos do Centro de Fortaleza. Entre uma venda e outra, a vida foi se reinventando e se tornando parte do lugar

26/08/2017 17:00:00
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“Cheguei aqui no dia 22 de abril de 61, uma segunda-feira, às oito e meia da manhã. O salário mínimo era 4.920, e a moeda era Cruzeiro”. O tempo parece não ter passado para o vendedor Antônio Marcelo Sampaio Lopes, 74 anos. Ele continua com a mesma disposição dos 18 anos, quando começou a trabalhar no setor de vendas da Casablanca Tecidos. Uma disposição de menino, ri-se: “Nasci dentro do comércio. Meu pai era lojista em Pacoti (93,5 quilômetros de Fortaleza). Quando vim pra cá, já tinha experiência”. Lembra que começou com “dez, 11 anos, ajudando (o pai), aprendendo a medir, passei a vendedor de pano”.
[SAIBAMAIS] 

Nas memórias dos mais antigos funcionários da tradicional loja de  tecidos, vida e comércio se tornam uma só história, do tamanho do viver. Seu Marcelo, por exemplo, estudou em colégio de padre, aprendeu francês, inglês, latim, mas não aconteceu de ser militar. Para sustentar outros sonhos, empregou-se no comércio da Capital onde permanece há 56 anos.
 

“Seu Emílio (da primeira geração de proprietários) gostava de homem inteligente, trabalhador e que não mentisse”, conta sobre sua admissão e permanência. “E ainda vou lhe dizer uma coisa: 56 anos e nunca levei uma punição, repreensão, suspensão. Levei um enredo de uma cliente, outro dia. Mas disse: ‘A verdade não é essa, não...’. E ele (proprietário) sabe que eu não minto. Nunca menti nem pra minha mulher!”, soma.

Dedicação
“O relacionamento com o público é fundamental. E tem que gostar do que faz. E, acima de tudo, ter conhecimento do que está fazendo”, orienta o gerente Francisco Airton Craveiro, 66 anos. Bem mais da metade da vida, 47 anos, ele já viveu naquele comércio, desde quando entrou como contínuo.


De 413 funcionários do grupo (são seis lojas), 60 são aposentados que continuam no balcão, na gerência, no ir e vir dos dias. “Eles são muito importantes... Eles se criaram aqui, cresceram com a gente”, reconhece Emílio Ary Filho, 60 anos, sócio da Casablanca Tecidos.
 

“Fui faturista, auxiliar de vendas, chefe de setor, trabalhei no custo e venda, sub-gerente”, Airton enumera os degraus que subiu. Está aposentado há 14 anos, mas ainda não parou no tempo, quer mais da vida (que conheceu). “Fico emocionado em falar disso. Porque, pra mim, (alcançar a gerência) foi um reconhecimento à minha dedicação, ao meu trabalho... Numa escada de zero a cem, meus pais me deram os dez primeiros passos. Os outros 90, eu tive que correr atrás”, relaciona.
 

O vendedor Joaquim Eduardo Nunes Lopes, 71 anos, é outro que ainda não sossegou entre os corredores de tecidos. Tinha “13 anos e meio”, calcula, quando começou a trabalhar como contínuo. “Foi por acaso. Naquele tempo, era fácil trabalhar. Meu tio era motorista e eu vinha com ele, pra aprender a andar na Cidade”, costura, entre as vendas da tarde desta entrevista. “Passei a ser vendedor em agosto de 1964. Na época, fiz até o segundo ano ginasial”, completa-se.

Amizade
Joaquim é dos bons, os colegas apontam. Já são quase 60 anos de entendimento da vida no comércio. “Eu gosto, não sei fazer outra coisa... Quem trabalha sem gostar jamais será um bom profissional. Em qualquer área: se for engenheiro, médico...”, ensina o vendedor. “A gente tem clientes antigos, que é como se fosse uma amiga. Cliente que trata a gente como gente. Tenho cliente que deixa de comprar na Aldeota pra vir aqui”, orgulha-se Joaquim.
 

Cada um com sua importância. “Comecei no pacote, passei para o escritório. E tenho mais de 30 anos nas vendas... As pessoas gostam mais de ser atendidas por mulheres. Porque dão opinião, os homens não sabem dar opinião!”, considera Eliene Ferreira do Nascimento, 60 anos, vendedora do setor de cama, mesa e banho desde meados dos anos 80.
 

Cada qual com seu ganho. A soma dos expedientes com a aposentadoria, ou dos anos com a perseverança, deu ao vendedor Marcelo, por exemplo, o que ele possui hoje: “Casa própria, eduquei meus filhos. Três filhos, sete netos. Já tenho neto saindo engenheiro”, retrata. “Fiz um pezinho de meia, no Interior, com criação de animal, por causa do meu avô”, complementa. “Tenho infinitas amizades. Tenho amizades, aqui, dentro do comércio, de 40 anos”, lucra também o gerente Airton.

Ana Mary C. Cavalcante

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