PUBLICIDADE
Jornal

Homenagem. Fã de Belchior constrói memorial para o cantor em Massapé

Em Massapê, um fã transformou a própria casa num misto de monumento e museu para o cantor cearense. A viúva do compositor conheceu o espaço e se emocionou

29/07/2017 17:00:00
NULL
NULL
[FOTO1]

Era cedo da noite do domingo 7 de maio, quando o funcionário público Mauro Lira voltava para casa, depois de deixar a esposa na igreja. Seria um percurso comum para o morador do município de Massapê (a 203 km da Capital), não tivesse ele se espantado com um carro escuro, de vidros levantados que começou a segui-lo. Ele sentiu medo, já prevendo um dos muitos crimes que se tem notícia por aí. Percebendo que pediam para ele parar, escolheu fazê-lo em frente à Igreja de São Francisco. A situação era estranha, mas algo dizia que ele deveria parar.

[SAIBAMAIS]

O fato é que Mauro é fã ardoroso de Belchior e havia colado no vidro traseiro do seu Uno Vivace uma inscrição: “Belchior, Saudades!!!”. Foi a mensagem nada discreta que chamou a atenção de quem estava no outro carro. Foi dele que saiu uma senhora, baixa estatura, usando óculos escuros. Ela colocou a mão no rosto do prestador de serviço da Secretaria da Cultura de Massapê e disse: “Meu filho, por gentileza, deixa eu tirar uma foto do seu carro, que isso muito me interessa”.


A senhora não se apresentou de pronto, mas Mauro reconheceu logo que era Edna Assunção de Araújo, a esposa de seu ídolo. “O que está no meu carro é só o começo. Lá em casa é que tem uma festa”, respondeu ele, já fazendo o convite para que ela fosse conhecer. Curiosamente, naquele mesmo dia, ele havia pintado numa viga da sala “Belchior, suas músicas são lendas que jamais serão esquecidas”.


Luiz Mauro Carneiro (o Lira é sobrenome da mãe, que ele não herdou), 54 anos, sempre foi fã do autor de A palo seco. No entanto, em 6 de fevereiro de 1996, a admiração virou fanatismo. Naquele dia, ele estava construindo a casa onde mora, quando saiu todo sujo da obra para ir ao Hotel Beira Rio, em Sobral, onde soube pelo irmão que Belchior estava hospedado ali. Era verdade e ele se impressionou com a simplicidade do compositor, que o abraçou e tirou foto, sem nem ligar para o barro e cal de suas roupas. “Eu todo sujo e ele todo arrumado, e me deu um abraço”, comenta, emocionado.

[QUOTE1]

Desde então, ele guarda em casa os autógrafos, discos, vídeos e todas as reportagens que encontra sobre aquele que considera seu “número um”. Ao ver o acervo, Edna sentou numa escrivaninha, folheou os jornais e chorou. Ela usava os óculos que foram de Belchior e Mauro sentiu o coração bater mais forte quando segurou o objeto. “Você gostava dele mesmo, né?”, comentou a produtora cultural que ficou na casa do fã por volta de meia hora. “Ela é calma, voz passiva e um pouco estranhazinha. Ela pouco conversa. Muito tímida, talvez. Ela pediu o telefone dizendo que iria ligar, mas não ligou”, descreve Mauro. “Eu descobri que ela é uma andarilha. Não tem onde ficar. Ela ficou um mais de um mês na casa da vice-prefeita de Massapê, depois foi pra Recife ficar com uma irmã”, continua.


O adesivo, colocado pouco antes da missa de 7º dia do cantor, e o acervo de fotos, jornais e discos são só o começo do memorial que Mauro Lira quer montar em casa. No lugar já existe um museu dedicado ao ator Artur Wilson Aguiar, conhecido pela propaganda do xarope Castaniodo, um primo distante. Casado com a professora Lúcia Dias Albuquerque e pai de duas filhas, Mauro admite que sua adoração não é muito aprovada dentro de casa, mas é respeitada.


“Quando eu soube da morte dele, me emocionei muito pensando no passado. Nem dava para acreditar, porque, apesar de estar há muitos anos fora do palco, ele estava vivo dentro de mim”, lamenta o fã que foi um dos primeiros a chegar no aeroporto de Sobral para receber o corpo de Belchior. “Acompanhei todos os momentos do corpo. Fiquei o tempo todo perto do caixão. Se pudesse ter saído o verniz do caixão dele foi de tanto eu passar a mão. Isso de tanto amor que eu tinha por ele”, confessa, sem medir limites. Tão sem limites que ele sonha, caso pudesse ter uma última conversa com o autor de Alucinação, somente pediria para que ele voltasse a cantar. “Tenho uma agenda antiga, onde eu anotei que, se um dia ganhasse na Mega Sena, pagaria todas as contas dele e só pediria de troco que ele cantasse pertinho de mim, aqui em Massapê”. (Marcos Sampaio)

 

Adriano Nogueira

TAGS