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Geraldo Rufino. A trajetória de quem passou de catador de lata a empresário

Geraldo Rufino narra sua trajetória. Ele começou a trabalhar como catador de lata aos 8 anos e, em meio aos percalços, criou as próprias oportunidades e empreendeu

29/07/2017 17:00:00
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Geraldo é dessas pessoas que falam e, mesmo que a conversa seja por telefone, o interlocutor consegue entrever o sorriso. Aos 58 anos, Geraldo Rufino é hoje empresário, dono da JR Diesel — empresa de reciclagem automotiva — e completa 50 anos de trabalho. No primeiro emprego, enegrecia o corpo ensacando carvão. O segundo foi um ensaio para o que faz hoje: catava no aterro sanitário e vendia latinhas no depósito. Como sabiamente diz, de lá para cá, só mudou o tamanho da lata. Geraldo escreveu o livro Catador de Sonhos e hoje viaja falando sobre empreender e criar as próprias oportunidades. Na última semana, trouxe o sorriso para TEDx Fortaleza e conversou com O POVO.


O POVO - A família do senhor é de Minas Gerais e foi para São Paulo quando o senhor ainda era criança. Foi em busca de melhores oportunidades?

Geraldo Rufino - Chegamos eu tinha 4 anos, com mais sete irmãos, minha mãe (Geralda Narcisa de Jesus) e meu pai (Aristides Rufino de Moura). Nos instalamos na casa de uma tia, acabamos nos transferindo para uma favela, a Favela do Sapo, que hoje é a Favela R8. Isso foi em 1963. Nós viemos porque meu pai tinha uma lavoura e perdeu por conta de uma geada. Nós recomeçamos aqui. Minhas irmãs foram trabalhar de empregada doméstica, minha mãe também, meu pai foi ser assistente de pedreiro e a vida começou.

OP - O senhor começou a trabalhar muito cedo, não é?

Geraldo - É, porque aprendi com a minha mãe que, em vez de ficar no lamento, tinha que fazer alguma coisa. Minha mãe levava a gente pra trabalhar. Ela faleceu muito cedo, eu tinha 8 anos. Aí arrumei emprego, trabalhava 12 horas por dia e ajudava meu pai. Era num local que recebia carvão a granel e ensacava em pequenas embalagens. Fiz isso dos 8 aos 9, que foi quando achei uma oportunidade de ir catar latinha num aterro sanitário.

OP - E como foi?

Geraldo - Percebi que lá tinha mais oportunidade. Fui catar latinha e montei meu primeiro negócio. Percebi que se catasse latinha e não vendesse pro carroceiro, conseguisse juntar uma semana e vendesse num depósito maior, eu ganharia mais dinheiro. Aí montei uma operação de reciclagem. Durou dois anos. Eu juntava dinheiro e enterrava em um terreno. Um dia, o dono do terreno veio, limpou e sumiu com o dinheiro. Perdi tudo e fui fazer outra coisa. A gente tinha campo de futebol, que eu cobrava pro povo jogar. A gente tinha uma TV em casa, e ninguém mais tinha na rua. Aí a gente fazia pipoca, arroz doce, e vendia pros meninos que vinham. Juntei dinheiro até os 13 anos. Aí fui ser office boy no grupo PlayCenter. Entrei lá com 13 e saí com 30, mas já era diretor. Lá eu cresci, estudei, trabalhei, mas pensando como empreendedor e gerando oportunidades.

OP - Como foi que o senhor passou de diretor de uma empresa a dono da própria?

Geraldo - Foi um acidente de percurso, nunca planejei nada. Estava muito bem empregado, mas eu me preocupava sempre com a família. Eu os ajudava a empreender. Eu entrava com dinheiro, eles com trabalho, e a gente ia montando pequenos negócios. De negócio em negócio, se montou um de transportar coisas com kombis, caminhões. Aconteceu um acidente e a gente teve de vender as peças dos caminhões, porque não valia a pena consertar. Isso de vender as peças foi aumentando e se transformou na reciclagem automotiva. A empresa teve problemas financeiros. Eles foram investir em outra coisa e foram embora. Como o CNPJ estava no meu nome, vim pra deixar o nome limpo. Fiz isso em seis meses.

OP - E como está a empresa hoje?

Geraldo - Temos uma linha de reciclagem automotiva, é um processo moderno. Empregamos 150 pessoas, a maioria tem mais de dez anos de empresa. A gente sempre busca evoluir, não só na tecnologia, mas que as pessoas evoluam. Eu cuido das pessoas e elas cuidam da empresa. Sou muito orgulhoso de tudo que foi construído, mas continuo simples. Se você me pergunta qual a diferença daquele tempo pra agora, eu respondo: a diferença é que mudou o tamanho da lata (risos).

 

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