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Dois dedos de prosa com

01/07/2017 17:00:00
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Décio de Castro. Psicólogo e especialista em Saúde Mental e em Gestão de Saúde, Décio de Castro atua como articulador e interlocutor do Projeto Redes, da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad). Defensor de políticas de redução de danos no tratamento para dependentes químicos, ele critica as ações implantadas recentemente em São Paulo pelo prefeito João Doria, na Cracolândia, onde trabalhou no programa De Braços Abertos, na gestão Fernando Haddad. Décio esteve em Fortaleza na última semana ministrando palestras sobre a redução de danos, na 5ª edição da Semana Municipal sobre Drogas.

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O POVO - Conceitualmente, em que consiste o trabalho de redução de danos com dependentes?

Décio de Castro - Do ponto de vista conceitual, são pelo menos oito tipos diferentes de interpretação do termo. São pessoas comprometidas com o consumo de substância porque fazem de maneira abusiva, se colocam em risco e não conseguem parar. O primeiro pressuposto é esse. Você oferece o tratamento e a pessoa não quer. Aí que entra redução de danos. É como você criar estratégias para aproximar essas pessoas do serviços públicos para que no mínimo a gente possa intervir quando o sujeito tiver necessidades. Como a gente tá muito colonizado pelo senso comum de que tudo que acontece de errado na vida do cara é por causa da droga, a gente fica focando errado achando que ele tem que parar de usar. O que a redução de danos traz, e a gente vem implantando no Brasil, como primeiro pressuposto é olhar o sujeito. Independente do consumo de drogas. Segundo, entender o que tá acontecendo com a vida dele para ele ter parado lá. E terceiro olhar quais são as necessidades de apoio para ele sair de lá.

OP - Gerou muita controvérsia a política adotada em São Paulo pelo prefeito João Doria em desmontar o programa De Braços Abertos, da gestão Haddad. Como o senhor viu essa nova política do atual prefeito?

Décio - Tentativas através da Polícia ou criminalização do consumo para tirar as pessoas da Cracolândia nunca funcionaram. O que me parece é que há muita falta de planejamento porque a ação que se iniciou há 40 dias foi tirá-los do local onde estavam. Eles foram para uma outra praça maior, ali próximo, causando bastante transtorno para o comércio e moradores do entorno. As ações que desenvolveram foram todas atabalhoadas e no sentido do marketing. Demolir casas sem saber se tem gente dentro, querendo dar uma ideia de que tá dando um choque de gestão. Mas o que fizeram foi dar um choque nas pessoas achando que a partir do sofrimento e da dor que o Estado produz a essas pessoas que já estão em uma situação muito vulnerabilizada, você consegue que ele vai aderir a algum tipo de tratamento.

OP - É possível conciliar os tratamentos baseados na abstinência com a redução de danos?

Décio - A internação deve ser sempre um dispositivo. Mas ela serve para casos muito específicos. Quando a gente usa dela como se fosse a panaceia que vai resolver tudo serve para duas coisas: dar dinheiro para quem interna e dar uma falsa sensação à família de que o filho está sendo cuidado naquele lugar. Quero deixar bem claro que a questão não é contra a internação, mas usá-la como último recurso quando você não consegue dar conta dos problemas das pessoas dentro do território de convívio delas. De dez a 20 por cento de quem procura esses tratamentos conseguem bancar. Agora, o grande desafio no mundo todo é como lidar com o restante que quer se tratar e que não consegue bancar. Aí entram as práticas de redução de danos. Não há uma incompatibilidade, mas uma ampliação da oferta do cuidado. Quando se faz isso preservando direitos fundamentais da vida do sujeito, há uma grande chance dele se reestruturar. A principal ferramenta é a vinculação com as pessoas. Uma ampliação de uma relação de confiança com esses usuários para que eles possam aderir às propostas que a gente tem. Principalmente, priorizar os sujeitos. Tudo que a gente fez até agora foi achar que a droga era quem trazia o problema. Vamos tirá-la do mercado. Vamos combinar que não conseguimos nem aqui e em nenhum lugar do mundo.

 

Por João Marcelo Sena

Repórter de Cotidiano

 

Adriano Nogueira

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