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Abuso sexual. Palavras do abismo

Pouco mais de quatro meses depois de denúncia sobre o abuso sexual praticado por líder religioso, vítimas falam ao O POVO sobre o caso. Elas querem alertar outras jovens que sofrem, em silêncio, violência semelhante

29/07/2017 17:00:00
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É como se elas tivessem cavado um abismo dentro do próprio corpo e jogado a história lá. A madrugada do abuso sexual, elas fugiam, deveria se tornar o mais profundo silêncio. Não conseguiam nem contar para si mesmas o que havia acontecido com elas. Dizer, elas sentiam, devastava tudo outra vez. Dizer, elas pensavam, era estar, irremediavelmente, só.

[SAIBAMAIS]
“Assim que aconteceu, fiquei em pânico. Eu não conseguia me mexer, não sabia o que fazer... A sensação que eu tinha é que ninguém ia acreditar em mim e que eu estava só no mundo... Eu tinha 80 irmãos e irmãs e, de repente, estava sozinha. Não podia levar para a minha família porque eu já não tinha uma boa relação. Não podia levar pros meus amigos de fora porque eu já estava bem isolada deles”, desabafa uma delas. “E, aí, comecei a rezar, pedindo pra esquecer... Eu não queria lembrar, eu não queria lembrar... Só que você tenta esquecer, mas não consegue. Eu me recusava a lembrar, mas eu sabia que aquilo tinha acontecido”, une.


“Ninguém ia acreditar em mim”, dialoga a outra jovem. “Aconteceu comigo, mas eu não tinha a dimensão do que era aquilo, que era um crime tão sério, onde poderia chegar. Eu não tinha a menor dimensão disso... Quando aconteceu, fiquei sofrendo por dentro. Porque não tinha com quem falar. A pessoa mais próxima que eu tinha era um homem, como é que eu ia chegar pra um amigo, homem, pra contar? Era uma situação muito difícil, então, realmente, calei”, sublinha.

FÉ E CONFIANÇA


As jovens* afirmam que foram vítimas de abuso sexual na Comunidade Católica Família em Missão, denunciado em março deste ano. O acusado do crime é o fundador da Comunidade, o paulista Paulo Monteiro Amorim, 53 anos, um empresário do ramo de seguros, casado, sem filhos. Ele está preso, preventivamente, desde quando uma integrante da Comunidade revelou a violência. Mais de dez denúncias são investigadas, informaram as vítimas ouvidas pelo O POVO.


Aos poucos, a história é resgatada do silêncio e do medo de quem sofreu o abuso. As jovens falam, principalmente, que o líder religioso costumava lhes dar remédios quando elas dormiam na casa dele. Para dor de cabeça ou gripe, acreditavam, ou fitoterápicos para insônia. “Ele já vinha com o remédio e o copo d´água, não vinha com a embalagem”, detalham as jovens ao O POVO, “A gente confiava, cegamente, nele... Eu chamava ele de pai... Ele mesmo falava que conhecia cada um dos filhos e sabia como agir com cada um”.


A relação de confiança paterna, elas reconstituem, se estabeleceu com o tempo, pelas fragilidades e pela fé de cada uma. As jovens frequentavam a Comunidade há quatro, cinco anos. Carregavam perdas familiares e buscavam amparo espiritual, demarcam. “Sempre tive essa necessidade de Deus... Ele é amor, é misericórdia, é bondade”, concordam. A Comunidade tinha sido formada em 2008, como grupo de oração. Paulo e a esposa, retratam as jovens, eram “superacolhedores, como se fossem, realmente, um pai e uma mãe... Eles diziam que eram nossos pais espirituais”. Mais que isso, complementam, o casal se colocava “como voz de Deus”.


MADRUGADA E INFERNO


Ver “aquele monte de gente já seguindo a ele (Paulo)”, destaca uma das vítimas, dava à jovem a dimensão da confiança. E, com o envolvimento nas atividades do grupo, as jovens reconhecem, elas foram se afastando da família, dos amigos e da vida além da Comunidade: “Quase todo dia, a gente tinha reunião”.


A casa do líder religioso, apontam as vítimas, passou a ser uma extensão também das relações afetivas perdidas. Havia um quarto e roupas de dormir para as jovens, elas lembram. Em uma madrugada definitiva, elas dizem ter percebido o abuso sexual. “Tinha tido outras experiências que eu tinha achado estranhas. Na época, acho que eu não queria fazer associação. Mas, no momento do último abuso, foi incontestável, eu não podia mais fugir de fazer essa associação”, relata uma jovem. A partir daí, foi o inferno.


Pensaram “muito, muito, muito” em sair do grupo, mas, igualmente, tinham “medo por conta das coisas que eles falavam, que a nossa família só ia se salvar através da Comunidade”, contrapõem. “A maioria de nós vem de famílias debilitadas, desestruturadas. Quando a gente via alguém da nossa família levando uma vida longe de Deus, pra gente, isso era doloroso”, explica uma delas.


Permanecendo na comunidade de oração, relaciona a outra, acreditavam estar “garantindo que eles (familiares) não vão para o inferno”. Paralisadas por dúvidas e angústias, descrevem, a atitude que conseguiram tomar foi frequentar menos as reuniões do grupo. E, por mais de um ano, cavaram, em si, o abismo onde jogaram esta história.

PALAVRA E LIBERTAÇÃO


Até que outra integrante da Comunidade falou o que viu em uma madrugada do último fevereiro, naquele quarto. Palavra por palavra foram resgatando as jovens, e cada uma foi ecoando no abismo da outra. Cinco, dez, 11 já depuseram à Polícia. Dizer, ao contrário do que elas pensavam, desfaz a solidão. “Eu só me lembro de falar, falar, falar, falar... Lembro que chorei muito, mas, ao mesmo tempo, foi uma libertação muito grande que experimentei. Era inexplicável poder estar falando aquilo que aconteceu comigo”, espelha uma delas.

* As jovens são maiores de idade, mas pediram para não serem identificadas. Convivem com o pavor, resultado do trauma.

 

Por Ana Mary C. Cavalcante

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