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Jornal

Dois dedos de prosa com Aparecida Victor

10/06/2017 17:00:00
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Aparecida Victor. Ladeados, 16 casais levam para as quadras em 20 apresentações pelo Ceará as cores e a força do São João. À frente deles, na posição de comando comumente ocupada por homens, a graciosidade e a presteza de Aparecida Victor. Aos 21 anos, a universitária ocupa pela quinta vez o posto de marcadora da Quadrilha Fulô do Sertão, de Senador Pompeu, a 275 km de Fortaleza. Depois de um começo difícil, “por ser mulher, por ter apenas 16 anos”, e da estranheza causada por uma menina com traços ainda pueris, ousar ser o coração da quadrilha, no comando do pulsar, Aparecida acumula títulos e traz a certeza de que viver junho é paixão e batalha.


O POVO - Como começou seu envolvimento com quadrilhas juninas?

Aparecida Victor- Começou desde criança, nas quadrilhas de escola. Quando eu saí do ensino fundamental, percebi que não ia mais ter aquela alegria que eu vivia todos os anos. Foi aí que surgiu o convite para dançar na Fulô do Sertão. Fui, mas era complicado, porque eu tinha 15 anos e minha mãe não queria aceitar, por ser muito nova, ter de viajar todo fim de semana sem ela. Mas aí o presidente da quadrilha (Glauber Mattos) conversou com ela e só então ela aceitou. Foi em 2011, entrei como brincante, e no ano seguinte surgiu o convite para ser marcadora. Hoje, é uma paixão. Ano passado, por exemplo, minha quadrilha não saiu. Este ano, a gente decidiu que ia ter nem que precisasse batalhar muito. E isso é comum a quase todo quadrilheiro: a batalha e a paixão. A gente é disposto a tudo pra dançar em junho.
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OP - A preparação é longa, exige dedicação, e por vezes você não tem incetivo. Você acha que mesmo assim o período junino causa tantas paixões por quê?

Aparecida - Nada disso é barreira para a emoção que a gente sente nos 35 minutos em quadra. Todo o esforço, toda dificuldade não são obstáculos que apaguem essa emoção de competir, de ser assistido, de ouvir o som do regional. Só quem ama isso consegue entender. Não tem dinheiro no mundo que pague isso.

OP - Como você, sendo de uma safra mais recente dos festejos, vê a modernização das quadrilhas?

Aparecida - Mesmo sendo nova, eu sou do grupo que defende a tradição. Não critico a modernidade, pode acontecer. Mas que não se perca o encanto que é o mês junino. Não sou contra inovar, mas daqui a uns dias não vai mais se saber do sertão, não vão mais dançar quadrilha. Vai ser qualquer outra coisa, menos quadrilha. O nosso Ceará é uma fonte de inspiração muito grande, e algumas quadrilhas buscam fora e trazem para cá. Aí nossa cultura se perde.

OP - Como surgiu o convite para ser marcadora?

Aparecida - Uma das coisas que fez com que me escolhessem como marcadora foi estar envolvida com outros movimentos culturais, com teatro. O coreógrafo (Cláudio Chuppill) disse que queria uma marcadora mulher e que se garantisse no teatro. Foi desafiador. Eu jamais esperava me tornar um destaque. Quando me convidaram, eu tive receio, medo.

OP - O posto de marcador antes era ocupado por um homem?

Aparecida - Sempre foi, antes acho que só uma das primeiras marcadoras era mulher. Quando o marcador disse que não queria mais o cargo, os brincantes tentavam adivinhar: “Ah! vai ser fulano!”, “”Vai ser sicrano”. Em nenhum momento, eles imaginavam que ia ser uma mulher. A decisão do coreógrafo causou estranheza, sim, principalmente naqueles que estavam há mais tempo na quadrilha, porque estavam acostumados a serem liderados por um homem.

OP - Como foi para você, mulher e jovem, estar nessa posição?

Aparecida - Não foi fácil encarar. Pelo fato de ser mulher, porque os marcadores são homens, por ser muito nova, eu tinha 16 anos, e por ser brincante só há um ano. As pessoas não acreditavam, achavam que não ia dar certo. Ouvi muitas críticas, as pessoas dizendo que os erros da quadrilha eram meus. Mas isso me fez me tornar mais forte. Eu era bobinha no início, e baixava muito a cabeça para o que as pessoas falavam. Mas chegou o momento em que eu decidi não ligar pro que diziam, viver o meu São João e mostrar que eu era capaz de ser o coração da quadrilha. A gente vai aprendendo, vai se construindo, e foi aí que, quase no final da temporada, eu ganhei um dos maiores títulos — que nenhum marcador que tinha passado pela Fulô do Sertão tinha ganhado — que foi a final do Ceará Junino.

OP - Você incentiva que outras mulheres se tornem marcadoras?

Aparecida - Claro. Sempre que as pessoas me procuram, eu conto a minha história, que não teve um começo fácil. Se eu tivesse desistido, o que eu pensei por muitas vezes, hoje eu não estaria liderando a quadrilha. É difícil, porque a quadrilha pulsa conforme o marcador. Se eu errar todo mundo erra. Quando olho para trás, percebo que isso me tornou forte como pessoa e como marcadora. Quando eu comecei, já existiam marcadoras, mas não eram tantas. Existiam algumas pelo Vale (Jaguaribe). Hoje em dia, eu fico muito feliz quando percebo que existem muito mais marcadoras mulheres. Depois que eu surgi, de certa forma isso mudou um pouco. E eu fico feliz porque eu posso ter incentivado, de algum jeito, isso.

OP - Fazer parte de um quadrilha te faz entender o papel da cultura?

Aparecida - Eu acredito que a cultura pode mudar a vida das pessoas. A arte é, sim, importante e é por isso que participo de grupo folclórico da Cidade, sou diretora cultural do centro acadêmico na minha faculdade. Estar na quadrilha foi abrindo a minha mente, me fazendo perceber o quanto a cultura é necessária, que é algo que movimenta uma cidade, que pode mudar a realidade de um município, de uma comunidade, pode dar fôlego novo e oportunidade para pessoas que nunca teriam. Eu sei que nunca eu teria conquistado tudo o que eu tenho se não fosse a quadrilha.

 

Por Domitila Andrade

Repórter de Cotidiano

 

Adriano Nogueira

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