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Jornal

Confronto das ideias. "O fumacê é eficaz no combate ao Aedes aegypti?"

10/06/2017 17:00:00

SIM

Manassés Claudino Fonteles

fonteles.manasses@gmail.com

Professor Emérito da Universidade Estadual do Ceará (Uece), presidente da Academia Cearense de Medicina e membro da Academia Nacional de Medicina

 

Com o retorno das chuvas em vários pontos do Nordeste brasileiro, aumentou em muito a população do Aedes aegypti. Nestas circunstâncias, o número de mosquitos cresceu em progressão geométrica, e não há como fazer o controle da população de mosquito simplesmente com educação sanitária e campanhas junto a população, que só virão a ter efeitos reais a longo prazo. Neste caso, o fumacê pode ser muito útil, porque alcança uma quantidade muito maior de mosquito, aos milhares...


O problema é de como isso pode ser alcançado em escala racional, e com os cuidados necessários, sobretudo com as crianças e os idosos. Essa classe de inseticidas é muito menos tóxica para seres humanos do que outros derivados fosforados dentre os quase 50 mil compostos que já foram produzidos nos últimos anos a partir da primeira guerra mundial. O fumacê, que contém malathion, foi empregado no Brasil desde 1980 e foi o principal responsável pela erradicação do Aedes aegypti e, consequentemente, da dengue nos anos 1950, quando ainda se usava o DDT.


O malathion difere em muito da composição de produtos encontrados em farmácias e em supermercados, em embalagens para uso doméstico. Há que ter-se cuidados protegendo a pele e mucosas sobretudo do trato respiratório e de pacientes com insuficiência renal, já que sua eliminação se dá pelos rins.


O problema maior é como disponibilizar o fumacê de maneira sistemática e continuada em zonas em que a população do mosquito esteja em expansão, procurando relacionar com a expansão territorial dos casos de arboviroses, que produzem morbidade ameaçadora, como a febre chikungunya e a própria dengue. Em momentos como o atual, o fumacê tem, sim, um papel relevante.


O problema maior consiste em interrupções constantes nos processos de combate ao mosquito. A campanha educativa tem que ser contínua, visando à eliminação do mosquito causador de enfermidades graves com o número de óbitos em ascensão. Obviamente, os meios de comunicação têm relevante papel nesse processo.

 

NÃO

 

Luciano Pamplona

pamplona.luciano@gmail.com

Professor de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará

 

Começo dizendo que eu gostaria muito que o fumacê fosse tão eficiente quanto as pessoas acreditam que ele é. De fato, quando ele passa nas ruas, joga inseticida por meio daquele equipamento instalado na caçamba das caminhonetes, que fraciona o tamanho das gotas liberadas. O inseticida só é letal quando essas gotículas, compostas de inseticida %2b diluente (água), entram em contato com os mosquitos. Partindo desse pressuposto, a pergunta principal a ser feita seria: o que devo fazer quando o fumacê passa na minha rua? A resposta esperada seria: “Abrir portas e janelas”. Mas o que vemos é exatamente o contrário. A mesma pessoa que solicitou o fumacê, quando identifica aquele som característico, se adianta e fecha as janelas. “Comportamento curioso esse nosso...”.


E o que podemos perguntar sobre a segurança desse método? A resposta pode ser entendida de várias formas. Antecipo que estamos falando de um produto que é testado, avaliado e liberado pela Organização Mundial da Saúde para utilização com esse fim. Portanto, seguro; mas não tanto. Claro que é possível haver pessoas na população que manifestem alergias de pele ou mesmo respiratórias ao entrarem em contato com essas micropartículas.


E os danos ambientais existem? Acredito que sim, mas são bem limitadas as formas de comprovar isso, já que o fumacê é utilizado, predominantemente, em áreas urbanas que já são previamente degradadas e agredidas de diversas outras formas.


Mas, se sua eficiência parece ser limitada, se temos controvérsias sobre problemas ambientais e de possíveis problemas alergênicos, por que recomendar sua utilização? Porque não há dúvidas de que o impacto causado pelas epidemias de dengue e chikungunya são muito mais palpáveis que os fatores negativos possivelmente associados ao uso do fumacê. Além disso, alguns trabalhos apontam que, indiretamente, o fumacê é capaz de quebrar a inércia das pessoas em relação à prevenção nas próprias casas, por achar que o governo está fazendo sua parte.


Dessa forma, concluo que o fumacê parece ser “um mal necessário” em momentos epidêmicos. Ressalte-se: em momentos epidêmicos!

 

Adriano Nogueira

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