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Jornal

Allan Aguiar: "Turismo: o Dragão do Mar e os aviões no ar"

10/06/2017 17:00:00

Allan Aguiar

allan@allanaguiar.com

Ex-secretário do Turismo do Ceará


Se o abolicionista e valente herói cearense Chico da Matilde, nosso Dragão do Mar, retornasse a esse mundo, mandaria retirar, imediatamente, a placa que batiza o aeroporto fantasma de Aracati com seu nome. O malogrado empreendimento não combina nem um pouco com sua gloriosa trajetória de coragem e luta pela liberdade. Sua vida foi gratificante e um sucesso, remetendo-o aos livros de história pelos feitos relevantes junto ao Império. Já o aeroporto é um fracasso e entrou nas manchetes nacionais como produto do descalabro e excentricidade de políticos provincianos e sem respeito ao erário público.

 

Cinco anos atrás era inaugurado e hoje já engoliu do povo cearense, entre obras, custeio e manutenção, impressionantes R$ 75 milhões. Sem um mísero voo com turistas nesses cinco anos, o elefante branco foi construído ao arrepio do mínimo planejamento dos vetores econômicos associados a equipamentos do gênero e capazes de atrair os investimentos privados em turismo e hotelaria. Na pressa das eleições, atropelaram o ordenamento das vocações econômicas da região e começaram a casa pelo telhado, que é a parte mais visível e geradora de voto.


Com a jaca podre cultivada no próprio colo, coube ao Governo do Estado tentar encontrar uma saída honrosa para o mamute, buscando transformá-lo em Aeroporto Oficina de aviões executivos da TAM. Pequenos aviões pousando para apertar parafusos não é capaz de justificar tamanho dispêndio do dinheiro dos pobres cearenses. Mesmo assim, foi construído o hangar oficina da TAM, que segue a ver navios, nenhum avião e sequer empregos para os aracatienses.


No azo, o que se viu foi a completa perda de competitividade e degradação do destino turístico âncora do litoral leste, a nossa magnífica Canoa Quebrada, que quebrou. Sem turistas suficientes, o trade turístico da terra natal do Dragão do Mar viu minguarem suas receitas e desvalorizarem seus ativos e empreendimentos turísticos. A outrora encantadora e alegre Broadway, de bares e restaurantes de alto padrão, hoje, para nosso desespero, aproxima-se mais de uma “cracolândia” que de um ambiente de curtição sadia com a família. Veículos sobre as dunas e aerogeradores gigantes que impedem a perfeição do pôr do sol ajudam a estrangular o paraíso, que é uma monocultura do turismo.


Enquanto isso, do outro lado do litoral cearense, o Aeroporto de Jeri, sequer inaugurado, já contabiliza propostas firmes dos seus primeiros voos charters e regulares, repletos de turistas, a serem operados por Gol e Azul, enchendo de boas expectativas a cadeia produtiva do turismo. Lá, a situação é outra e classificada como o “bom problema” representado pelos riscos de excesso de demanda que venha a gerar a “farofada” e a “Icaraização” via modal aéreo comprado em 12 vezes sem juros.


Assim, em homenagem à história do nosso Dragão do Mar, que, sendo do mar e não do ar, rebatizemos o aeroporto fantasma de Aracati com o nome de um dos políticos que deram causa a essa vergonha de todos os cearenses.

 

Adriano Nogueira

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