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Sergio Machado. Lentidão no STF favorece o delator

Um ano depois de ter delatado ex-aliados políticos e confessar que comandou esquema milionário de propina na Transpetro, qual a situação do ex-senador Sergio Machado?

13/05/2017 17:00:00
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Sergio Machado, 69, tem uma vida vigiada. Onde quer que vá, há alguém para estranhar o fato de ele circular livremente. “Ele já estaria usando tornozeleira antes da prisão domiciliar?”. A pergunta incomoda leitores e internautas que, pedindo anonimato, ligam ou escrevem para O POVO dando conta de que o viram numa barbearia, no shopping próximo à mansão dele no bairro Dunas, na missa e na academia. “Ele não confessou a corrupção?”. “Não revelou que roubou milhões da Transpetro?”. “Por que ainda está livre, como se nada tivesse acontecido um ano depois da homologação da delação?” .


Indagações difíceis de responder. Tamanha a falta de disposição de quem deveria repassar informação, principalmente os gabinetes dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que trabalham com as investigações da Lava Jato e ignoram até a Lei de Acesso à Informação (LAI). Mesmo em relação ao que não é sigiloso e carece de transparência.

[SAIBAMAIS]
Há dez meses, O POVO busca informações. Pedidos de entrevistas e insistência, por e-mails, ao STF, Polícia Federal, Justiça Federal (de Fortaleza e Curitiba), Procuradoria Geral da República (PGR em Brasília e no Ceará) e outros órgãos.

Saber quem fiscalizava a suposta prisão domiciliar de Sergio Machado, mesmo antes de a defesa dele informar, em agosto passado, que o cliente não queria mais cumprir antecipadamente a pena determinada no acordo de colaboração premiada - homologado em maio de 2016.


Por ter delatado o esquema de propina que beneficiou a si mesmo, o ex-presidente da Transpetro escapou do presídio, ao contrário de outros delatores. A corrupção também favoreceu seus três filhos e teria se estendido a ex-aliados peemedebistas como o então vice-presidente Michel Temer, o ex-presidente José Sarney, os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá.


O acordo prevê que a pena deveria ser domiciliar. Dois anos e três meses em regime fechado dentro de casa e nove meses no semiaberto. Quando for julgado, e não há previsão para tal, poderá pegar 20 anos de prisão, que serão convertidos em pena alternativa, segundo o acordo firmado.


Para justificar a falta de informação sobre a situação carcerária de Machado, em outubro do ano passado, o então ministro do STF, Teori Zavascki, afirmou que “em observância ao inciso III do artigo 36 da Lei Orgânica da Magistratura, os ministros ficam impossibilitados de responder a sua pergunta”. E transcreveu parte da legislação para fundamentar sobre a demora na prisão e a liberdade diferenciada de Sergio Machado.


Teori Zavascki argumentou que “é vedado ao magistrado manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento”, escreveu por e-mail, ao O POVO.

 

Call center


No último dia 17, o ministro Edson Fachin (que substituiu Zavascki, falecido em janeiro deste ano), em resposta a um requerimento de 14 perguntas, feito via Lei de Acesso à Informação, encaminhou a reportagem a uma central de atendimento do STF. Uma espécie de call center do Supremo.


“O processo relativo à referida colaboração não se encontra acobertado pelo sigilo. Demais informações podem ser obtidas na Seção de Atendimento Não Presencial – (61) 3217-4465 ou, pessoalmente, na Seção de Atendimento Presencial, neste STF - Anexo II A, Térreo. A Central do Cidadão agradece o seu contato”, respondeu o gabinete de Fachin, ignorando a LAI.

 

Liberdade


De fato, o sigilo estava quebrado desde maio de 2016, mas não havia técnicos nas centrais de atendimento para responder sobre a falta de andamento ou morosidade no processo do delator cearense. Depois de novas insistências, o gabinete do ministro respondeu: “Nas peças em anexo, verifica-se que a defesa requereu o cumprimento da cláusula 5ª (antecipação da prisão domiciliar antes da sentença), mas, em seguida, apresentou petição requerendo sua desistência.

O ministro Teori Zavascki então julgou prejudicado o pedido (de cumprimento antecipado). Após isso, não encontramos mais informações nos autos sobre a matéria”, reportou a assessoria de imprensa.


O gabinete do procurador Geral da República, Rodrigo Janot, se eximiu de qualquer responsabilidade. “Bem-vindo ao STF”, ironizou uma fonte, sobre a lentidão do Supremo. Como o processo não avança, Sérgio Machado, diferente de outros delatores, continua livre e usufruindo dos ‘lucros’ dos milhões que desviou e lavou enquanto foi presidente da Transpetro (2003- 2014). Pelo menos, R$ 192 milhões.

 
75 milhões. É a multa compensatória que Sérgio Machado e os filhos Sérgio Firmeza, Expedito Neto e Daniel Firmeza têm de pagar à Petrobras pela corrupção na Transpetro  

 

192 milhões. Seria parte do dinheiro do esquema de corrupção de Sergio Machado.Ele confessou ter escondido R$ 70 milhões no HSBC/Suíça. Em 11 anos, via acordos empreiteriras/Transpetro, teria desviado R$ 22 milhões. E mais R$ 100 milhões distribuídos como propina para políticos 

 

18 parcelas. De R$ 3,611 milhões devem ser pagas por Sergio Machado e os filhos até completarem R$ 65 milhões. É o que prevê o acordo de colaboração/delação premiada  

 

10 milhões. Teriam de ter sido devolvidos até junho/2016 - como 1ª parcela.

Segundo a assessoria de imprensa do gabinete de Rodrigo Janot, procurador Geral da República (PGR), o delator estaria cumprindo o acertado no acordo de delação  

Wagner Mendes, Demitri Túlio

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