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Jornal

Netflix. Uma novidade que ainda divide opiniões

13/05/2017 17:00:00
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A principal problemática para a Federação de Cinemas Franceses em relação à seleção de filmes distribuídos pela Netflix em Cannes é a ausência de estreia nos cinemas, por receio do esvaziamento das salas. A regra criada pela organização do Festival após pressão das entidades francesas acaba corroborando essa visão ao estabelecer a necessidade da distribuição comercial posterior à exibição em Cannes. Como explica a pesquisadora da UFC, Samantha Capdeville, o advento de novas mídias é historicamente demonizado. “Sempre se acreditou que a chegada de uma nova mídia eliminaria a anterior, mas até hoje temos a coexistência do livro, do jornal, do rádio, do cinema, da TV, entre outras, em diferentes proporções”, ensina. “A partir de formas de exibição como a Netflix, o cinema, enquanto espaço físico, pode se tornar um lugar ainda menos utilizado para o consumo cinematográfico. Não significa, no entanto, que deixará de existir”, pondera.
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Um dos argumentos utilizados pela Federação de Cinemas Franceses para defender a própria bandeira é o questionamento da “natureza cinematográfica” dos filmes Netflix. No entanto, essa visão é rebatida pelos nomes da indústria cearense de audiovisual ouvidos pelo Vida&Arte. “Não é uma questão sobre qualidade ou conteúdo, mas como o público terá acesso”, opina Samuel Brasileiro, diretor e roteirista. Pedro Azevedo, curador do Cinema do Dragão, faz coro. “O problema tem a ver com o formato de exibição, como esses filmes chegam ao público. Não duvido da qualidade cinematográfica dos dois filmes da Netflix na competição de Cannes”, afirma.
 

Esses profissionais, porém, admitem ter ressalvas aos serviços de streaming. “Sala de cinema, televisão ou celular, acredito que o mais importante é que essas obras cheguem ao público. Mas, como realizador, acredito que eles tragam uma experiência que não é tão imersiva quanto uma sala de exibição. Acho que o filme existir somente na plataforma de streaming não é suficiente”, afirma Samuel. O distribuidor e programador Salomão Santana questiona ainda o acesso às plataformas de vídeo sob demanda. “Até que ponto essa larga oferta pode nos afetar? Não acho que existe uma democratização real. As assinaturas de streamings, TV fechada e ingressos continuam caros”, contesta Salomão.
 

Na avaliação de Pedro, o circuito alternativo de exibição sofre com as novas formas de consumo de audiovisual mas precisa de alternativas de proteção às salas que não recaiam em proibições. “A solução passa muito mais por um processo de formação de plateia interessada em consumir essa experiência (no sentido amplo) de sala de cinema do que qualquer movimento reacionário ao fenômeno do streaming e afins”, defende, para depois admitir: “É uma discussão recente e preciso confessar que ainda estou pensando a respeito”.
 

“Num primeiro momento, este (a entrada da Netflix em Cannes) parecia ser um grande passo para o entendimento do cinema para além do seu espaço de exibição. Mas, em seguida, o Festival cede às pressões dos exibidores. Em seguida, Cannes adota como critério o lançamento comercial”, resume Samantha. “Estaríamos dando um passo atrás? Certamente, temos mais dúvidas que respostas”, provoca. (João Gabriel Tréz) 

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CARLOS, O CHACAL (2010)
A minissérie de TV sobre o revolucionário venezuelano Ilich Ramírez Sánchez foi selecionada na edição de 2010. Os protestos contrários diziam que a obra não poderia participar do Festival por não ser um filme. O diretor-geral do evento, Thierry Frémaux, não retirou a obra da seleção, que foi exibido fora da competição.
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BEHIND THE
CANDELABRA (2013)
Filme produzido pela HBO, a obra disputou a Palma de Ouro naquele ano. Por ter tido os direitos de distribuição em território francês adquiridos por uma distribuidora tradicional, que garantiu a estreia do longa nos cinemas, não houve muita polêmica em torno da seleção. É curioso notar que o filme disputou, após o festival de Cannes, diversos prêmios televisivos dos EUA.
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PRESENÇA DA AMAZON (2016)
No ano passado, foram cinco os filmes selecionados para o festival que pertenciam a uma plataforma de streaming, no caso, a Amazon (na foto, filme A Criada). A empresa difere da Netflix por lançar comercialmente os filmes em parceria com distribuidoras antes da disponibilização online. Na época, Thierry Frémaux classificou a companhia como “uma distribuidora e produtora real”.

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ALÉM DO STREAMING (2017)
Neste ano, inovação se faz presente também com a seleção de Carne y arena, instalação de realidade virtual (fora de competição), a exibição de seis episódios da série Top of The Lake: China Girl, de Jane Campion, e do primeiro episódio da nova temporada de Twin Peaks (foto), de David Lynch (sessões especiais). Ambos os diretores já levaram a Palma de Ouro em edições anteriores do Festival. 

 

 

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