PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

Fausto Nilo. Belchior entre São Francisco e a luxúria

Cultura: Após a morte do amigo dos tempos de infância, o arquiteto e poeta Fausto Nilo conversou com O POVO sobre a vida de extremos e coragens de Belchior

17:00 | 06/05/2017

Fausto Nilo foi ao velório do amigo no Centro Dragão do Mar, lugar onde os dois se despediram há 10 anos LUIZ ALVES/DRAGÃO DO MAR
Fausto Nilo foi ao velório do amigo no Centro Dragão do Mar, lugar onde os dois se despediram há 10 anos LUIZ ALVES/DRAGÃO DO MAR
Fausto Nilo, 73, deixou sozinho a sala onde o corpo do amigo de infância estava sendo velado, na entrada do teatro do Dragão do Mar. Era começo de noite da segunda-feira, 1º de maio. Dez anos antes, ali perto, haviam tido sua última conversa. Um papo ligeiro sobre as “coisas da vida”, como gosta de dizer. O arquiteto tinha acabado de deixar o palco onde havia se apresentado no centro cultural. Belchior, que assistira ao show, deu uma passada no camarim apenas pra avisar que já estava de partida. Fausto o encontraria horas depois, namorando num banco da praça, a mesma onde, naquela segunda, centenas de pessoas se apinhavam numa fila para se despedir do cantor e compositor. O amigo era assim, lembra Fausto em entrevista ao O POVO, a primeira que deu logo após o triste reencontro com o autor de Paralelas: “Ele tinha um lado São Francisco e um lado muito luxuriante”.

 

O POVO - Como conheceu Belchior e de que maneira se tornaram amigos?

Fausto Nilo – Eu evitei muito de falar sobre isso (a morte do amigo) porque a desorientação foi muito grande com a notícia. Independentemente do nosso encontro na universidade em torno da música, Belchior foi um amigo de quase infância. Ele foi meu companheiro do Liceu no ginasial, eu tinha 14 anos e ele tinha 10 e meio. Ficamos amigos porque era um menino que sabia latim como nenhum outro da turma, conhecia romances franceses, trechos enormes, e também conhecia a bíblia. Não tinha mais interesse, mas ele persistia com aquilo. Isso chamou muito a minha atenção. Era uma época em que nós, os meninos de uma cidade pequena, estávamos atrás de encontrar outros além do futebol. O Cláudio Pereira era dessa turma, o Barbosa Coutinho, o Valmir Teles, que é ator e vive no Rio de Janeiro. Nós formamos, então, esse grupo, que tinha interesses muito especiais, embora com diferenças. Esse é o Belchior que eu conheci e que durante toda a vida foi meu grande amigo. Ele nunca deixou de ir na minha casa por mais de três meses, só agora nesse último intervalo, com essa saída (refere-se ao isolamento do cantor e compositor). E nossa conversa era muito livre, nem se falava muito sobre música, a gente falava sobre as coisas da vida que a gente observava. Nunca faltou assunto. Não tô sentindo a morte. Acho que ele vai bem. Era um cara resiliente, isso nem me preocupa. É só nós e o fato.

 

OP - Caetano disse que Belchior fazia músicas dessas que não morrem.

Fausto – Acho que sim. O mais difícil na carreira de um poeta popular de canções é fazer músicas que não morrem. Para a grande maioria, é impossível.

 

OP – Por que o cearense se identifica tanto com a música do Belchior?

Fausto – O que eu me recordo é que, na época, ele foi o primeiro de nós a aparecer na mídia nacional. Todos estavam lutando para serem contratados por uma gravadora, para serem profissionais. E ele entrou num festival que tinha muito prestígio, que era o festival universitário, e ganhou com aquela música Na Hora do almoço. Aquilo fez com que aparecesse em cadeia nacional. Eu tava no Rio com Caetano, Fagner e muitos outros, todos muito jovens, e todos ali olhando pro palco, vendo nosso conterrâneo. Eu tenho fotografias lindas dessa época. E a gente acreditava que, a partir daquilo, estava tudo resolvido, que todo mundo virava artista. E não foi. Ainda teve muita luta. O Belchior foi muito danado nisso, foi pra São Paulo e, lá, morou num edifício em ruínas de um amigo dele, um poeta paulistano que era muito querido, um judeu. Cheguei a ir muitas vezes nessa casa. E aquilo, da parte dele, era feito de um lado “monastérico”. Ele tinha um lado São Francisco misturado com uns diabinhos. Era uma figura incrível. E eu atesto isso desde o começo. Sempre essas duas forças atuando. Acho que o desaparecimento dele seria de novo São Francisco aparecendo – porque na juventude ele foi do noviciado em Guaramiranga –, uma outra volta na espiral, mas num mundo mais moderno.

 

OP – Como você vê o sumiço dele e como foi tratado de modo geral pela imprensa?

Fausto – Não sei. Fico contente com a manifestação do povo brasileiro, demonstrando isso que o Caetano fala, que as canções dele são permanentes, mas, ao mesmo tempo, como é difícil isso tudo, como é complicado. Porque é o mesmo Belchior, é o mesmo cara que escreveu aquelas letras e tudo e ficou muito tempo depois obscuro. Mas, apesar disso, ele fazia shows no Brasil todo dia. São poucos os colegas que tenho que faziam shows em lugares assim, Ilha de Marajó, não sei o quê de Roraima. Fazia como os populares fazem. E todo mundo via que ele tinha essa visão filosófica. Portanto, é uma hibridez que nós sabemos que não é só da nossa inteligência desta região aqui, é também lutar contra uma visão nacional de que há sempre uma reserva se somos cearenses. Ele lutava com isso, como eu luto, mas à maneira dele. O desaparecimento foi um acidente. Não foi um propósito nem uma assemelhação. Do que conheço dele, acho que foi uma ironia, a realidade escrevendo junto com ele como se fosse uma letra. Foi dormir numa cidade extrema do Rio Grande do Sul e, como dizíamos eu e ele, brincando, quando acordou, estava morto. Mas, na realidade, ele era uma pessoa muito forte, muito resistente, e o que ele sabia da vida, transformava em poesia. Não há necessidade de que aquilo coincida com ele, como personagem de tudo. E é isso que é bonito na arte.

 

OP – Ele viveu essa poesia que cantava. Nasceu no sertão do Ceará e morreu no interior gaúcho, num estado de fronteira.

Fausto – Claro, mas, ao mesmo tempo, isso não coincide com nenhuma letra, a rigor. É uma imaginação com uma liberdade extrema. É o que a arte faz. Onde houver seres humanos, vai haver necessidade de existir arte para além da realidade.

 

OP- Você fala que a vida dele foi marcada por duas forças – uma divina e outra diabólica. Houve desequilíbrio entre elas em algum momento?

Fausto – Acho que não. Nunca esperei que a coisas que um poeta diz, e que as pessoas assimilam, precisem ser verdades de alguém. É uma necessidade que o ser humano tem, de que esse real da vida possa se dar um tempo e imaginar as coisas de outra maneira. Essa é a função dos artistas. Eles precisam disso. E o povo também precisa disso. Acho que ele fez isso.

 

OP – Quando foi a última vez que você falou com ele?

Fausto – Há muito tempo. Foi um pouco antes da saída dele. A última vez foi aqui, por coincidência (Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura). Eu tava fazendo um show e ele foi. Depois me encontrou no camarim e disse: ‘Olha, eu vou sair’. Porque ele tinha arranjado uma namorada e estava ali na pracinha. Aí eu fui lá encontrar com ele depois. Ao mesmo tempo em que ele tinha esse lado de São Francisco, tinha um lado muito luxuriante.

 

HENRIQUE ARAúJO