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Crise no governo. Perícias abrem polêmica sobre valor de gravações como prova

Peritos constataram sinais de edições na gravação da conversa entre Temer e Joesley, embora as conclusões não coincidam. Defesa do presidente deve tentar anular prova

20/05/2017 17:00:00

Perícias que começaram a vir a público desde a noite de sexta-feira apontam que teria havido edições na gravação do empresário Joesley Batista de conversa com o presidente Michel Temer (PMDB). Mas, peritos têm opiniões divergentes.


Contratado pela Folha de S.Paulo, Ricardo Caires dos Santos, perito judicial pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, aponta que houve mais de 50 edições e indícios claros de manipulação, embora não seja possível apontar com qual propósito. Ele considera haver vícios que, processualmente, invalidariam como prova jurídica.


Já o perito extrajudicial e judicial Marcelo Carneiro de Souza afirmou ao Estado de S.Paulo ter identificado, em análise preliminar, “fragmentações” – pequenos cortes de edição – em 14 momentos da conversa. Ele ressaltou, entretanto, não ter identificado sinais de edição no intervalo em que se falou sobre o que seriam pagamentos ao deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).


Caires, por sua vez, identificou os seguintes cortes: “Tá. Ele veio [corte] tá esperando [corte] dar ouvido à defesa. O Moro indeferiu 21 perguntas dele... que não tem nada a ver com a defesa dele”, em trecho da fala de Temer. Em outro momento no qual o presidente fala, o perito identificou novas edições: “Era pra me trucar, eu não fiz nada [corte]... No Supremo Tribunal totalidade só um ou dois [corte]... aí, rapaz mas temos [corte] 11 ministros”.


Outro corte seria quando o empresário fala que “deu conta” de dois juízes: “...eu consegui [corte] me ajude dentro da força-tarefa, que tá”. Porém, no momento em que Temer daria aval para que Joesley mantenha a relação com Cunha, não foi identificado sinal de edição, embora haja trechos inaudíveis.


Marcelo Carneiro considera que conclusão definitiva dependeria de análise do gravador. Mesma opinião tem o perito Ricardo Molina, que, entretanto, não analisou o áudio. Molina afirma que a gravação tem baixa qualidade técnica. “Percebem-se mais de 40 interrupções, mas não dá para saber o que as provoca. Pode ser um defeito do gravador, pode ser edição, não dá para saber”, afirmou à Folha. Caires dos Santos descartou hipótese de defeito.


Segundo a Folha de S.Paulo, o Palácio do Planalto pediu perícia nos áudios, que teria constatado ruídos enxertados para disfarçar cortes. Defesa de Temer deve pedir a anulação das provas.

 

Adriano Nogueira

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