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Jornal

Artigo. A vida transverberada pela Beleza

Para alguns teólogos, a fé é fruto da graça; para outros, trata-se de uma decisão pessoal, um ato volitivo e livre, portanto

13/05/2017 17:00:00

 

Vasco Arruda
vascoarruda@gmail.com
Psicólogo


No parágrafo que abre o livro “História do ateísmo: os descrentes no mundo ocidental, das origens aos nossos dias”, George Minois, historiador das mentalidades religiosas, indaga: “Uma história da descrença [incroyance] e do ateísmo, numa época em que se proclama por toda parte a ‘volta da religião’, a ‘revanche de Deus’ e o ‘reencantamento do mundo’, seria uma provocação, um ato de inconsciência, um arcaísmo ou um delírio?” (p. 1) concluindo, no capítulo final da obra: “A civilização do ano 2000 é ateia. O fato de ainda falar de Deus, Alá, Iavé ou outros não muda nada, porque o conteúdo do discurso não é mais religioso, mas político, sociológico, psicológico. O próprio sagrado deixou de existir; nem o homem, que era visto no século XIX como sucessor de Deus, tomou o seu lugar. Basta ver como ele é tratado, como é manipulado, como é martirizado, para se convencer de que a humanidade não foi divinizada. No naufrágio generalizado dos valores, resta apenas um sagrado irredutível: eu. E é em última instância no eu que teremos de nos alicerçar para construir uma nova racionalidade” (p. 730).


Em que pese a consistência dos argumentos aduzidos pelo autor, custa-me aceitar que devamos desistir dessa dimensão tão vital para o ser humano sintetizada na palavra sagrado. Admitamos ou não, ela continua mais presente do que se poderia supor. Considere-se, por exemplo, o halo de sacralidade experimentado pelos católicos ao longo dessa semana, por ocasião da celebração dos 100 anos das aparições de Fátima. Antero de Figueiredo expressou-o de forma lapidar no livro “Fátima: graças, segredos, mistérios”, ao comentar a representação iconográfica de Nossa Senhora de Fátima, em que interagem as dimensões natural e sobrenatural: “Duas naturezas distintas? Sim, mas unidas: a Vida é composta de vida finita e de vida infinita, ambas postas, visíveis e invisíveis, no mesmo painel da existência. Díptico humano e divino, eis o quadro que sintetiza todo o anelo do fraco que se arrima ao forte; todo o apelo da criatura ao Criador: - aquela sofreguidão do espírito à Beleza, aquele suspiro de alma pelo Ideal, aquela transfiguração do ser em Deus” (p. 15).


Para alguns teólogos, a fé é fruto da graça; para outros, trata-se de uma decisão pessoal, um ato volitivo e livre, portanto. Para mim, apenas um leigo, não é uma coisa nem outra, resultando, antes, de uma interação entre ambas. Não conseguiria viver de outra forma que não amparado na convicção de que o sagrado é um dado real tanto quanto o mundo material em que vivemos e nos movemos. Talvez ao assumir tal perspectiva, eu esteja apostando numa ilusão.

Que seja. Ainda assim, é uma ilusão que tem me proporcionado um olhar sobre a vida que lhe confere um colorido diferente, posto que transverberado pelo influxo dessa Beleza de que fala Antero de Figueiredo. 

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