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Jornal

Crise. 14 impactos econômicos

20/05/2017 17:00:00

 

Câmbio

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, afirma que a elevação da taxa de câmbio, caso afete significativamente a inflação, dificulta a queda da taxa de juros pelo Banco Central (BC). A expectativa do mercado é que o dólar fechasse o ano a R$ 3,30. Agora se perde a previsibilidade. O consultor empresarial Raimundo Padilha lembra que o câmbio é volátil. “Houve forte impacto já no primeiro dia (quinta-feira, 18), mas que pode se diluir ao longo do tempo”. Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, diz que a tendência é o real se desvalorizar no curto prazo e se estabilizar quando a situação estiver clara. Mas o cenário externo também preocupa, com chance de impeachment de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.

PIB

Para Kawall, o prolongamento da crise política pode ter efeitos mais graves sobre a economia. Entre eles, está a queda no Produto Interno Bruto (PIB) em 2017, o que seria o terceiro ano consecutivo de retração, depois de baixa de 3,8% em 2015 e 3,6% em 2016. Por enquanto, a expectativa é de crescimento de 0,5% neste ano conforme o Boletim Focus da última segunda-feira. Agostini diz que os eventos políticos fizeram a Austin Rating revisar a expectativa, que antes era de alta de 0,7% para 2017 e 2,2% para 2018. “Inclusive com o risco de o País apresentar novamente recessão”.

Inflação

A trajetória dos preços no País, que vinham de desaceleração, pode mudar. Kawall avalia que a inflação, cuja expectativa do Focus aponta 4,2% ao fim do ano, não é mais previsível. Pelo menos não chegaria aos 10,7%, como visto em janeiro de 2016. “A priori, a inflação não se altera, pelo contrário, como há deterioração do emprego e da renda, os preços devem continuar em desaceleração. A única ressalva é se a taxa de câmbio disparar e se mantiver alta por certo tempo, aí a inflação sobe”. Célio Fernando, economista e presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais do Nordeste (Apimec Nodeste), avalia que o caos político reduz as chances de melhoria nos indicadores econômicos.

Taxa Selic

Raimundo Padilha arrisca que o BC deve manter a taxa Selic estável, hoje em 11,25% ao ano. Apesar da crise de imagem do BC, pela denúncia de que Temer adiantou o resultado da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) à JBS, Agostini aposta em queda da Selic, no dia 31 de maio, em um ponto percentual. André Guilherme Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, prevê a Selic em 8,5% ao fim do ano.

Setores

O índice de atividade econômica medido pelo Banco Central (BC) encerrado em abril (1º trimestre), aponta para crescimento no Ceará, de 1,34% e no Brasil, de 1,12%. Os resultados positivos apontavam para retomada dos investimentos dos setores em 2017 e retomada do emprego em 2018. Mas as notícias boas vieram antes das delações. Após a crise, Vitor Leitão diz que há pausa natural nos investimentos.

Empregos

Última variável a reagir depois de uma crise econômica é o emprego. O País encerrou o primeiro trimestre com 14,2 milhões de desempregados conforme o IBGE. Raimundo Padilha avalia que a tendência é que o número se agrave. “Essa delação contribuiu para a limpeza do País. Mas deveria ter sido anunciada pouco depois das reformas aprovadas”. Vitor Leitão, economista, acredita que a retomada do País não deve ser tão afetada - “esse abalo foi meio que inflado”, diz. Para ele, a retomada do emprego pode atrasar, mas deve acontecer em 2018.

 

Planos de concessões

Padilha acredita que o plano de concessões do Governo Federal continua se Temer permanecer. “Graças a Deus já fizemos o aeroporto aqui (Pinto Martins, arrematado por R$ 1,5 bilhão pela alemã Fraport). Se o Temer sai, a continuidade dos planos pode ser afetada. “Os petistas não eram muito favoráveis a essas concessões”, diz.

Agostini frisa que um governo instável afasta os investidores. “O lado negativo é que as concessões fazem parte do necessário plano de reequilíbrio fiscal das contas públicas”.


Reformas

Carlos kawall diz que a crise política altera o calendário das reformas e, no caso mais grave, elas podem até deixar de existir. “O que é um mal para o Brasil. Não havendo, afeta inflação, confiabilidade e equilíbrio das contas públicas. E pode não ter a mesma quantidade de votos (para aprovação no Congresso), porque mexeu na base de apoio. O presidente não vai correr risco de colocar as reformas em votação sem apoio”, diz. Alex Agostini diz que, a priori, as reformas estão suspensas por causa da fragmentação da base aliada. Para o economista Célio Fernando, as reformas da previdência, trabalhista e outras podem ser melhor conduzidas por um presidente com maior força e apoio popular.

Ele avalia que prejuízo maior seria o desmonte da equipe econômica.


Permanência das ações da equipe econômica

Para Raimundo Padilha, a área econômica possui grande responsabilidade perante o crescimento do País e não deve abandonar o barco. “A não ser que a equipe seja afastada na hipótese de mudança de presidente. Mas a mudança de presidente não ocorre de maneira tão rápida”. Alex Agostini diz que a expectativa é de continuidade, mas é difícil avaliar se haverá ambiente para amparar a empreitada.

Rating

A crise política afeta a percepção de risco do Brasil pelas agências de classificação. O caminho rumo à recuperação do grau de investimento depende de equilíbrio das contas públicas, que passa pela Reforma da Previdência, cujo andamento deve ficar travado no Congresso. “A situação fica em stand-by até que os fatos sejam totalmente esclarecidos”, diz Agostini. As notas das agências são importantes para medir o risco ao investir no Brasil. A Fitch, na última sexta-feira, citou que não descarta rebaixamento da nota do País nos próximos meses. A Moody's indicou que, sem reformas, há perspectiva de nota negativa.

Política

A perspectiva é que a dinâmica de votações no Congresso Nacional, em prol de aprovar pautas que tragam alívio à economia do País, tornem-se mais lentas. O economista-chefe do Banco Safra diz que a crença de que o Governo consiga aprovar as reformas necessárias está estremecida, pois Temer perdeu força. “Os empresários têm deixado muito claro que precisam de um horizonte de previsibilidade no longo prazo. Se não houver apoio dos políticos para aprovar as reformas, você adia o cenário de sustentabilidade que o País necessita”, afirma.

Rombo nas contas do Governo

Em abril, o Governo Federal aumentou a previsão do rombo de 2018 nas contas públicas para quase R$ 130 bilhões. Em 2017, a previsão é de déficit de R$ 188 bilhões. E para 2018, deve passar dos R$ 200 bilhões. Como o calendário das reformas está em compasso de espera, Padilha diz que o Governo não conseguirá diminuir os rombos das contas públicas. Para Agostini, as previsões deverão piorar em virtude de toda a dinâmica macroeconômica (vendas, produção, investimentos, etc.) entrar em stand-by.

Confiança

Pisar no freio. É assim que o economista Vitor Leitão diz que o investidor já reage à crise política do País. “Entre 30 e 60 dias vai haver cautela, porque não se sabe se de fato Temer sai ou não”. Em maio, a confiança do setor industrial avançou em relação ao mês passado e ao mesmo período de 2016, em 0,6 ponto percentual. Mas o cenário deve se reverter com as denúncias das delações. Já em relação à confiança do consumidor, Vitor não enxerga grande mudança. “Ele fica mais alheio, embora ainda seja afetado. Acho que o consumidor tem percebido uma melhora da economia”, diz. No Ceará, pelo terceiro mês consecutivo (maio), o consumidor se mostra mais 0,8% confiante ante abril.

 

País maduro

O economista Célio Fernando avalia o momento atual como difícil, mas não como crítico. “Eu acho que estamos construindo um amadurecimento do País e a sociedade está tendo mais resiliência política”.

Para ele, as dificuldades econômicas no Brasil levaram a processos de rescisão das lideranças políticas. “A nossa história tem maior volatilidade, mas tem aprendizagem razoável. Estamos construindo a democracia”.

 

Adriano Nogueira

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