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Tecnologia. Por dias mais sustentáveis

Inovação e pesquisa saem dos campi para o cotidiano da Cidade. Estudos que unem energias renováveis e mobilidade, materiais ecológicos e habitação vão ao encontro da sustentabilidade necessária ao futuro e tão urgente já no presente

17:00 | 08/04/2017
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A cidade se torna o maior dos laboratórios para os pesquisadores: não só por sua extensão territorial e complexidade humana, mas, principalmente, pela diversidade de suas demandas. Pesquisas locais tentam responder às necessidades da vida urbana e social, aproximando conhecimento e inovação. E concluem: o futuro pertence à sustentabilidade que se estabelece no cotidiano da cidade, desde o presente.

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Neste sentido, o que parecia se ligar apenas à imaginação deve se incorporar a ruas e moradas em breve. Você já pensou em uma bicicleta elétrica alimentada por uma “árvore solar”? Ou em uma casa capaz de barrar a penetração do calor em pleno semiárido? Estes são projetos que devem sair dos campi universitário e tecnológico para o dia a dia de todos. Em 2017, por exemplo, Fortaleza se prepara para incrementar a mobilidade urbana com o projeto da árvore solar.


“Estamos em negociação. Comecei a conversar com a Prefeitura e já temos contatos com algumas empresas”, traça o arquiteto e urbanista Geraldo Magela Costa de Moraes, autor do projeto. Um protótipo da árvore solar foi implementado na Universidade Estadual do Ceará (Uece) no último dia 21 de fevereiro. Em síntese, a árvore é um conjunto de dez painéis fotovoltaicos – ou seja, que podem captar a energia solar. A estrutura metálica armazena esta energia e gera carga a bicicletas elétricas.

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O projeto foi elaborado em 2012, explica o arquiteto, para se somar à mobilidade na Copa das Confederações. Mas não se realizou a tempo. Somente em fevereiro deste ano, a parceria com o mestrado em Ciências Físicas Aplicadas (Uece) e a empresa Eco Soluções em Energia (associada à Incubadora de Empresas da universidade) tiraram a árvore solar do papel.


Geraldo Magela não informa os custos para que a árvore solar seja transposta à cidade e às empresas. Responde apenas que “é compatível com o mercado” e que já há “muito interesse” em torno do projeto. Inspirada na forma como a natureza capta a luz do sol, sublinha Magela, a eficiência energética da árvore solar está sendo monitorada: “Estamos começando as primeiras medições... A disposição das pétalas é o ‘x’ da questão”. Além de bicicletas, carros elétricos também devem ser recarregados pela árvore solar, ele inclui.


Sabedoria e persistência

É também em uma sabedoria antiga que (re)começa um projeto de construção de casas com melhor conforto térmico. O Projeto Casa Maranguape é uma ideia que já conta 14 anos e muita persistência dos pesquisadores do Departamento de Construção Civil do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

 

“Estamos no semiárido e um dos nossos problemas é o ganho de calor. E o tijolo adobe é, naturalmente, uma barreira térmica”, estuda o professor Adeildo Cabral da Silva, pesquisador do Laboratório de Energias Renováveis e Conforto Ambiental (Lerca/IFCE).

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Inicialmente, foi idealizada uma casa-piloto em Maranguape (Região Metropolitana de Fortaleza). Feita com tijolo adobe, a residência demonstraria que é possível obter uma barreira de proteção ao calor, defende Adeildo. Noutras palavras e tempo, é a sabedoria da casa de taipa. O adobe, explica o pesquisador, é a construção de terra crua: “É conhecida no Estado. Em Viçosa do Ceará (354,9 quilômetros de Fortaleza), existem muitos exemplos... É uma técnica utilizada pelos antepassados”.


Leia-se também, guarda certa resistência. “Vi uma entrevista com Ariano Suassuna e a casa dele tem 180 anos, feita de pau a pique com amarradas de couro de boi. Adobe puro. Em Ouro Preto, existem casas do início do Brasil Colônia ainda de pé. Em Portugal, casas com 500 anos”, completa.


O tijolo adobe é ainda conhecido como ecológico por dispensar a queima em seu processo. Isso significa poupar a caatinga, atenta o pesquisador já que não se usa lenha. Em contrapartida, o mercado considera um processo lento e complexo, já que o adobe precisa de um maior tempo de “cura” (exposição ao sol) que o tijolo tradicional. Por falta de recursos, lamenta Adeildo Cabral, a casa-piloto não foi construída. Mais, ele diz: “Há um preconceito com a casa de adobe: acham que é construção para menos favorecido”.


O professor tenta, este ano, recuperar o projeto. Estudos de mestrado, realizados por um colega na Universidade do Porto (Portugal), e dois novos protótipos arquitetônicos – um no Eusébio e outro em Maranguape - pretendem ratificar a importância e a necessidade das construções em adobe, a qualquer tempo. “Passar para a comunidade que é confiável, é viável economicamente e é um resgate de uma técnica que já foi aprovada pelos nossos antepassados”, destaca Cabral.

 

Saiba mais


A avenida 13 de Maio, considerada uma das mais movimentadas da Capital, é um laboratório a céu aberto para os pesquisadores do IFCE (campus Benfica), aponta o professor Adeildo Cabral.


Há dez anos, o local é monitorado por eles. “No sentido de como a ocupação e o aumento do fluxo de veículos traz impactos ambientais para os edifícios do entorno, através de poluição atmosférica e aumento da temperatura”, explica Cabral.


As informações obtidas, direciona o professor, servem de base e atualização das políticas públicas. Há uma população vulnerável à poluição, por exemplo, e é imprescindível um monitoramento que ateste o grau do problema. Este é parte do diálogo entre os centros de pesquisas e a Cidade, ele ressalta.

 

ANA MARY C. CAVALCANTE

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