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Pescaria urbana. Os peixes como pretexto para reunir amigos

Em meio às águas que cortam a Cidade, pescadores aproveitam locais para arremessar tarrafas e anzóis na busca por peixes. Atividade reúne amigos durante a semana e nos fins de semana em vários pontos da Capital

17:00 | 08/04/2017
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Escondidos por alguns metros de matagal ou bem visíveis — em cima de pontes —, o “escritório” deles é sempre o mesmo. Confortavelmente acomodados próximos a algum canal de água, que ainda corre espremido no meio da Cidade, não há compromisso com horários, prazos ou lucro como aqueles que passam apressadamente nas vias do entorno. Na pescaria urbana, a captura do peixe é por esporte e o único compromisso é reunir os amigos para contar histórias e “tomar umas”.


No trecho do rio Cocó que passa sob a avenida Alberto Craveiro, no Dias Macedo, o aposentado Luiz Gonzaga, 67, bate o ponto diariamente. No meio da manhã, ele chega carregando marmita de iscas, vara e anzol. “Pesco rigorosamente todos os dias por diversão. Pesco e solto ou dou para alguém”, comentou.

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Além dele, o local é ponto de encontro de até 50 pessoas nos fins de semana. A busca por carás e tilápias rende até campeonato em abril entre ele os amigos. “Aqui é pelo divertimento e para tomarmos umas cachacinhas”, confessou o motorista Luiz Santos, 53. “Lá na empresa você me vê bem arrumadinho e bonitinho. Aqui eu sou marinheiro de primeira viagem”, justificou após duas horas de pescaria render cinco peixes.


Descendo no Cocó, já sobre o viaduto da Murilo Borges, no Alto da Balança, a chuva “botou pra correr” os amigos do sapateiro João Carneiro. Ele explica que o grupo chega a ter 15 pessoas pescando na área, principalmente no início do ano, quando as chuvas ajudam na reprodução dos carás. Contudo, neste ano está diferente. “Tem muita gente vindo à noite, dizem que dá mais peixe. De manhã está mais fraco que caldo de bila”, lamentou.


O sapateiro está desempregado e chega a ficar até quatro horas na atividade. “Eu estava em casa desocupado, sem fazer nada, vim para cá. Hoje não tem ninguém, mas aqui é uma festa quando está cheio”, relatou. Segundo ele, a maioria vai até lá por esporte e muitos peixes acabam devolvidos ao rio Cocó.

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Lagoa de Messejana

Com olhar seguindo os arremessos das tarrafas (redes) na Lagoa de Messejana, o comerciante Jorge da Silva, 58, conta que nunca tentou pegar peixe, apesar das visitas quase diárias ao local há 15 anos. “Venho fazer compras e sempre paro aqui”, explicou. Ele destaca as mudanças pelas quais o bairro passou. “Tudo mudou, Messejana cresceu muito, mas na Lagoa não falta gente pescando”, relatou.


Na manhã da última quarta-feira, 5, Jorge observava a pescaria de Manuel de Lima, 33. Apesar de não se conhecerem, poucos minutos bastaram para um começar a dar sugestões ao outro. Morador da Lagoa Redonda, o operário Lima aprendeu a pescar com a família aos 11 anos, todos pescadores de água salgada. “Mas eu sou de água doce”, alertou.


Para ele, a pesca é diversão durante a maior parte do ano, mas vira trabalho quando não há emprego na construção civil. “Quando arranjo serviço, eu vou. Quando não, estou aqui me virando”, contou. A pesca do dia rendeu cinco carás. “Já dá para fazer o pirão de hoje”, calculou.

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