VERSÃO IMPRESSA

Manfredo Araújo de Oliveira: "Velho e novo Nordeste"

17:00 | 08/04/2017

Manfredo Araújo de Oliveira

manfredo.oliveira2012@gmail.com

Filósofo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC)

O Nordeste reapareceu recentemente na fala do governo. Qual verdadeiramente a situação do Nordeste 60 anos após a criação da Sudene? Foi o tema de uma publicação recente da professora de economia, aposentada, da Universidade Federal de Pernambuco, Tânia Bacelar. Primeiro houve para ela uma mudança enorme na base da infraestrutura. Há 60 anos, o Nordeste não tinha energia; por isso, uma das primeiras iniciativas da Sudene foi levar energia para Fortaleza. Naquela época o Nordeste perdeu muitas investimentos por falta de estrada. Nos anos 1950, a grande novidade nas condições da infraestrutura foi a chegada da energia de Paulo Afonso; hoje se entra na fase da energia eólica revelando-se o potencial nordestino para a produção de energia limpa.


É mais recente no Nordeste a ampliação da infraestrutura econômica com grandes projetos: portos, aeroportos e ferrovias constituem um bloco de investimento. A tendência de investimento em infraestrutura hídrica é concentrar-se em grandes projetos, como a Transposição do Rio São Francisco, que, contudo, não atendem aos agricultores familiares da região; daí a necessidade da busca de uma alternativa. Houve grande mudança na infraestrutura das telecomunicações visibilizada pela invasão do celular no meio rural. Mudança grande ocorreu na dinâmica demográfica: forte queda de natalidade e redução significativa do tamanho das famílias. Aconteceu uma urbanização acelerada com avanço do predomínio de padrões e valores da vida urbana, redução considerável da migração para fora da região e da pobreza absoluta, melhoria da escolaridade média e avanço no acesso ao ensino superior no interior.

[QUOTE1]

A pergunta decisiva é: o que não mudou, quais fatores permaneceram inalterados nestas seis décadas? Não mudou a economia. O Nordeste continua com 13,5% (a população é de 28%) da economia do Brasil. A infraestrutura econômica continua um grande desafio. Quase 60% de quem trabalha aqui ganha até dois salários mínimos. O crescimento, puxado pelo consumo, bateu no teto porque a renda continua muito baixa. Mesmo havendo crédito, o endividamento tem como limite a renda. Certamente houve diminuição significativa da pobreza, mas o Nordeste continua uma região de muitos pobres. Ainda hoje há 18% da analfabetos entre pessoas a partir de 10 anos, o dobro da média nacional.


Permaneceu a carência da infraestrutura social: a estrutura fundiária manteve-se. Os dados do último censo mostram que a concentração fundiária entrou em novas áreas ocupadas por grandes propriedades. Esta questão desapareceu da agenda nacional. Por outro lado, faltam água, saneamento, tratamento de resíduos sobretudo nas periferias urbanas. O processo de favelização, que agora atinge a cidades médias, mostra a insuficiência dos investimentos em habitação de interesse social. Permanece baixo o investimento em infraestrutura social: saúde, urbanização de áreas pobres, educação infantil, educação fundamental e média de qualidade. O Nordeste permanece um grande desafio a clamar por igualdade e justiça.

 

ADRIANO NOGUEIRA

TAGS