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Jovita Feitosa. Heroína trágica da guerra maldita

Ela vestiu-se de homem para lutar uma guerra sem propósito, foi usada como instrumento de propaganda pelo Império e teve desfecho misterioso

17:00 | 01/04/2017

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Nesta semana, o nome de uma cearense morta há 150 anos, aos 19, passou a figurar no Livro dos Heróis no Panteão da Pátria e da Liberdade. Conhecida pela maioria como avenida de acesso à zona oeste de Fortaleza, Antônia Alves Feitosa — a Jovita Feitosa — é inocente personagem de uma história misteriosa e trágica.


Disfarçou-se de homem para tentar lutar no mais brutal e despropositado conflito armado da história da América do Sul. “Maldita guerra”, nas palavras do Barão de Cotegipe. Não teve permissão para combater no Paraguai, mas foi explorada como instrumento de propaganda pelo Império. Na versão oficial, cometeu suicídio ao ser abandonada por um amor.


Nasceu em Brejo Seco, local que seria o atual município de Araripe, em 8 de março de 1848, naquele que, 129 anos mais tarde, seria declarado pelas Nações Unidas o Dia Internacional da Mulher. Perdeu a mãe em epidemia de cólera e foi morar com tio na vila de Jaicós, no Piauí. Ao tomar conhecimento da invasão das tropas de Solano López a Corumbá (no então Mato Grosso), decidiu se alistar no corpo de Voluntários da Pátria. Como ouviu dizer que mulheres não eram aceitas no Exército, cortou os cabelos a faca, amarrou os seios com uma cinta, vestiu as roupas do tio e seguiu para se alistar em Teresina. Foi descoberta por uma feirante e denunciada.


“Voluntários” era forma de dizer. A elite fazia doações ou entregava escravos para os filhos não irem. Mas, pobres eram caçados e levados à força. Alguns se fantasiaram de mulheres para não combater. Jovita era a antítese disso.


Sabia atirar, tinha vontade de lutar e estava disposta a aprender o que lhe ensinassem. Era mais do que ofereciam praticamente todos os homens. Como não havia norma que proibisse, o comando militar piauiense não apenas a aceitou nos treinamentos. Deu a ela divisas de primeiro sargento. Passou a usar farda com saiote.


Ela foi ainda informada de que chegaria do Rio de Janeiro um jornalista interessado em escrever sobre ela. Afinal, logo se percebeu que a jovem de 17 anos era poderoso instrumento de propaganda de guerra, apresentada como exemplo de coragem enquanto homens fugiam. Foi recebida com honras em São Luís e Recife. No Rio de Janeiro, os “Voluntários” foram homenageados no Theatro São Pedro e Jovita recebeu aplausos entusiasmados. Porém, em 16 de setembro de 1865, foi informada pelo Ministério da Guerra de que não poderia integrar o corpo de combatentes, mas apenas “serviços compatíveis com a natureza do seu sexo”.


O que ocorreu depois é motivo de mistério. Teria vivido romance com o engenheiro Guilherme Noot, cuja casa pegou fogo em outubro de 1867. Dentro foi encontrado corpo de mulher carbonizado, com punhal encravado no peito.

Jornais informaram que seria Jovita. Conforme as notícias, cometeu suicídio ao saber que Noot retornaria à Europa. Nunca ficou claro como reconheceram o corpo carbonizado e depois se soube que Noot jamais tinha saído do Rio. Havia perguntas não respondidas, mas o assunto foi deixado para lá.


O desfecho talvez tenha sido outro. Em outubro de 1865, Jovita escreveu carta publicada na imprensa na qual agradeceu ao carinho popular e informou que retornaria ao Piauí. Mas, tinha plano diferente. Contou a Noot que pediria ao cabo Euzébio, que conhecera na viagem ao Rio, para levá-la ao front de batalha como sua mulher. Prestaria serviços de vivandeira, ajudaria com os feridos e cuidaria das coisas de Euzébio. Não há registros de que realmente tenha ido. Todavia, havia uma mulher combatente em campos paraguaios. Atirava bem, matava sem hesitar. Na maior parte do tempo, dedicava-se ao cuidado dos feridos, a quem levava para a brava enfermeira Ana Néri.


Quando o cabo que a levou como companheira morreu, tomou a farda dele, manteve o cabelo cortado bem rente e passou a guerrear.


Na batalha de Acosta Ñu, em agosto de 1869, a brava mulher morreu em incêndio. Era chamada Maria ou, por vezes, Florisbela. Jovita?

 

SAIBA MAIS
Entre as 41 pessoas no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, há cinco mulheres.

Duas cearenses: Jovita e Bárbara de Alencar (pernambucana radicada no Estado). As outras são a enfermeira baiana Ana Néri, Anita Garibaldi e a revolucionária indígena Clara Camarão, esta última incluída também agora. O livro tem páginas de aço e fica exposto no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes.

A Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança teve desfecho trágico para vencidos e vencedores. O Estado paraguaio foi destruído e até 300 mil podem ter morrido. A reorganização demorou décadas e a economia jamais alcançou o estágio pré-guerra. No Brasil, o Império se endividou e pavimentou a base para derrubada de dom Pedro II e instalação da República duas décadas depois.

REFERÊNCIAS: Jovita Feitosa, de Kelma Matos, Coleção Terra Bárbara, Edições Demócrito Rocha, 2001. Maldita guerra, de Francisco Doratioto, Companhia das Letras, 2015. 

ÉRICO FIRMO

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Jovita Feitosa. Heroína trágica da guerra maldita

Ela vestiu-se de homem para lutar uma guerra sem propósito, foi usada como instrumento de propaganda pelo Império e teve desfecho misterioso

17:00 | 01/04/2017

[FOTO1]
Nesta semana, o nome de uma cearense morta há 150 anos, aos 19, passou a figurar no Livro dos Heróis no Panteão da Pátria e da Liberdade. Conhecida pela maioria como avenida de acesso à zona oeste de Fortaleza, Antônia Alves Feitosa — a Jovita Feitosa — é inocente personagem de uma história misteriosa e trágica.


Disfarçou-se de homem para tentar lutar no mais brutal e despropositado conflito armado da história da América do Sul. “Maldita guerra”, nas palavras do Barão de Cotegipe. Não teve permissão para combater no Paraguai, mas foi explorada como instrumento de propaganda pelo Império. Na versão oficial, cometeu suicídio ao ser abandonada por um amor.


Nasceu em Brejo Seco, local que seria o atual município de Araripe, em 8 de março de 1848, naquele que, 129 anos mais tarde, seria declarado pelas Nações Unidas o Dia Internacional da Mulher. Perdeu a mãe em epidemia de cólera e foi morar com tio na vila de Jaicós, no Piauí. Ao tomar conhecimento da invasão das tropas de Solano López a Corumbá (no então Mato Grosso), decidiu se alistar no corpo de Voluntários da Pátria. Como ouviu dizer que mulheres não eram aceitas no Exército, cortou os cabelos a faca, amarrou os seios com uma cinta, vestiu as roupas do tio e seguiu para se alistar em Teresina. Foi descoberta por uma feirante e denunciada.


“Voluntários” era forma de dizer. A elite fazia doações ou entregava escravos para os filhos não irem. Mas, pobres eram caçados e levados à força. Alguns se fantasiaram de mulheres para não combater. Jovita era a antítese disso.


Sabia atirar, tinha vontade de lutar e estava disposta a aprender o que lhe ensinassem. Era mais do que ofereciam praticamente todos os homens. Como não havia norma que proibisse, o comando militar piauiense não apenas a aceitou nos treinamentos. Deu a ela divisas de primeiro sargento. Passou a usar farda com saiote.


Ela foi ainda informada de que chegaria do Rio de Janeiro um jornalista interessado em escrever sobre ela. Afinal, logo se percebeu que a jovem de 17 anos era poderoso instrumento de propaganda de guerra, apresentada como exemplo de coragem enquanto homens fugiam. Foi recebida com honras em São Luís e Recife. No Rio de Janeiro, os “Voluntários” foram homenageados no Theatro São Pedro e Jovita recebeu aplausos entusiasmados. Porém, em 16 de setembro de 1865, foi informada pelo Ministério da Guerra de que não poderia integrar o corpo de combatentes, mas apenas “serviços compatíveis com a natureza do seu sexo”.


O que ocorreu depois é motivo de mistério. Teria vivido romance com o engenheiro Guilherme Noot, cuja casa pegou fogo em outubro de 1867. Dentro foi encontrado corpo de mulher carbonizado, com punhal encravado no peito.

Jornais informaram que seria Jovita. Conforme as notícias, cometeu suicídio ao saber que Noot retornaria à Europa. Nunca ficou claro como reconheceram o corpo carbonizado e depois se soube que Noot jamais tinha saído do Rio. Havia perguntas não respondidas, mas o assunto foi deixado para lá.


O desfecho talvez tenha sido outro. Em outubro de 1865, Jovita escreveu carta publicada na imprensa na qual agradeceu ao carinho popular e informou que retornaria ao Piauí. Mas, tinha plano diferente. Contou a Noot que pediria ao cabo Euzébio, que conhecera na viagem ao Rio, para levá-la ao front de batalha como sua mulher. Prestaria serviços de vivandeira, ajudaria com os feridos e cuidaria das coisas de Euzébio. Não há registros de que realmente tenha ido. Todavia, havia uma mulher combatente em campos paraguaios. Atirava bem, matava sem hesitar. Na maior parte do tempo, dedicava-se ao cuidado dos feridos, a quem levava para a brava enfermeira Ana Néri.


Quando o cabo que a levou como companheira morreu, tomou a farda dele, manteve o cabelo cortado bem rente e passou a guerrear.


Na batalha de Acosta Ñu, em agosto de 1869, a brava mulher morreu em incêndio. Era chamada Maria ou, por vezes, Florisbela. Jovita?

 

SAIBA MAIS
Entre as 41 pessoas no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, há cinco mulheres.

Duas cearenses: Jovita e Bárbara de Alencar (pernambucana radicada no Estado). As outras são a enfermeira baiana Ana Néri, Anita Garibaldi e a revolucionária indígena Clara Camarão, esta última incluída também agora. O livro tem páginas de aço e fica exposto no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes.

A Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança teve desfecho trágico para vencidos e vencedores. O Estado paraguaio foi destruído e até 300 mil podem ter morrido. A reorganização demorou décadas e a economia jamais alcançou o estágio pré-guerra. No Brasil, o Império se endividou e pavimentou a base para derrubada de dom Pedro II e instalação da República duas décadas depois.

REFERÊNCIAS: Jovita Feitosa, de Kelma Matos, Coleção Terra Bárbara, Edições Demócrito Rocha, 2001. Maldita guerra, de Francisco Doratioto, Companhia das Letras, 2015. 

ÉRICO FIRMO

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