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Will Eisner. O gigante dos quadrinhos

Cultura: Um dos mais relevantes nomes das histórias em quadrinhos, o quadrinista norte-americano Will Eisner completaria 100 anos amanhã, 6

17:00 | 04/03/2017

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Direta ou indiretamente, não é pouca a influência que o quadrinista Will Eisner teve e continua tendo ainda hoje, 12 anos após seu falecimento, sobre os profissionais que vieram depois dele. Ao longo de 87 anos de vida e quase 70 de carreira, o norte-americano se estabeleceu como uma das principais figuras da indústria das histórias em quadrinhos –não por acaso ele empresta o sobrenome para o maior prêmio da área, os Eisner Awards. Para marcar a comemoração ao que seriam os 100 anos do quadrinista, o Vida& Arte discute o legado e a influência de Eisner no atual panorama das HQs.

Direta ou indiretamente, não é pouca a influência que o quadrinista Will Eisner teve e continua tendo ainda hoje, 12 anos após seu falecimento, sobre os profissionais que vieram depois. Ao longo de 87 anos de vida e quase 70 de carreira, o norte-americano se estabeleceu como uma das principais figuras da indústria das histórias em quadrinhos — não por acaso, empresta o sobrenome ao maior prêmio da área, os Eisner Awards.

Visão de negócios
Para os leigosem histórias em quadrinhos, uma comparação ajuda a dimensionar a importância de Eisner e de sua obra: o quadrinista é resumido por Sidney Gusman, editor-chefe do site Universo HQ e responsável pelo planejamento editorial da Maurício de Sousa Produções, como “o Pelé dos quadrinhos”.“Pode ter Messi, Maradona, mas igual a Pelé não vai ter outro”, explica.Assim como o craque do futebol, Eisner também começou cedo na carreira, quebrou paradigmas e ajudou a construir outros.

Antes dos 20 anos, por volta da metade dos anos 1930, o então jovem Eisner já fazia tirinhas para uma publicação comandada por Jerry Iger. No fim da mesma década, Eisner e Iger se juntaram para abrir uma companhia que produzia e vendia material autoral de quadrinhos, o que se revelou um sucesso – ele costumava dizer que tinha “ficado muito rico antes dos 22”. “Eisner tinha uma visão única dos quadrinhos como um negócio”, começa Gabriel Franklin, livreiro e membro do site Iradex. “Por ser empresário e artista, ele equilibrava a relação entre as partes nos contratos, para garantir os direitos autorais e assegurar lucro”.

Histórias de pessoas
Numa época em que os grandes sucessos editoriais eram heróis poderosos, o primeiro êxito de Eisner como autor de HQs veio em 1940, com a criação de The Spirit, um detetive que vivia secretamente no submundo do crime. Como explica Daniel Brandão, quadrinista e professor de desenho, essa fase quebrou paradigmas comuns na produção existente até o momento. “Ele inovou na linguagem dos quadrinhos. Em muitas histórias, o Spirit quase não aparecia. A narrativa era diferenciada, as angulações, o preto e branco”, enumera. O destaque para ele, porém, eram os roteiros. “Não eram histórias de heróis de uniforme, eram histórias de seres humanos, com roteiros muito humanos”, afirma.

O personagem seguiu existindo até o início dos anos 1950. Eisner, desta década até o início dos anos 1970, se distanciou da criação artística de HQs por conta da dedicação à empresa American Visuals Corporation, fundada por ele à época. A volta à criação se deu com o interesse dele pelo formato até então pouco difundido das graphicnovels (romances gráficos, em português), que conta histórias longas em formato de quadrinhos e permite novas abordagens. Uma das principais obras da carreira do quadrinista, inclusive, é Um Contrato Com Deus, que fez tanto sucesso que é até equivocadamente  creditada como “a primeira graphic novel” da história.
 

“Quando ele resolveu trabalhar com quadrinhos mais adultos, outras pessoas já tinha aberto esse caminho. O que Eisner fez foi ver a possibilidade de tratar de temas fortes nesse formato e, então, popularizar o termo graphic novel”, explica Daniel. “Se existiam portas abertas por outros autores, o trabalho de Will Eisner as escancarou”, arremata. Entre os temas, estavam sexo, violência doméstica e até a leucemia que acometeu sua filha, na década de 1970. Para Gabriel Franklin, “a principal contribuição dele foi mostrar, para os produtores e leitores, que a HQ não tinha limites de enredo nem formato”.

JOÃO GABRIEL TRÉZ

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