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Editorial. Campanha da Fraternidade 2017: não ao modelo predatório

"Dois desses ecossistemas, Caatinga e Mata Atlântica, incidem no Ceará e nos interessam de perto"

17:00 | 04/03/2017

A Campanha da Fraternidade lançada anualmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no início da Quaresma, tem como tema, neste ano, “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e como lema, “Cultivar e guardar a criação”. Em foco, a degradação dos seis biomas brasileiros: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa, com a convocação das autoridades públicas, da sociedade civil e da comunidade cristã a se mobilizarem em torno do assunto.


Dois desses ecossistemas – Caatinga e Mata Atlântica – incidem no Ceará e nos interessam de perto. A Caatinga ocupa 7,4 milhões da cobertura florestal do Ceará, que é de 8,5 milhões de hectare, no total. É um bioma único no mundo, com uma rica biodiversidade. No entanto, 80% de sua cobertura original foram alterados, em especial por causa de desmatamentos e queimadas e a produção de lenha e carvão para olarias, padarias, churrascarias etc. Isso agrava o processo de desertificação que se intensifica com a mudança climática em curso e inviabiliza a situação das populações que dependem do bioma para sobreviver.


Já a Mata Atlântica, resiste apenas numa área total de 1.873 km², no Ceará. Essa relíquia está sendo devorada pela especulação imobiliária, uso incompatível do solo associado à expansão de complexos turísticos e culturas de crustáceos.


Desde Paulo VI até Francisco, os papas vêm dando ênfase à questão ambiental, a eles se juntando o Patriarca Ecumênico da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu I. Todos alertando para a destruição paulatina do planeta como consequência de um modelo econômico predatório, concentrador de riqueza, que sacrifica tudo à busca desenfreada de lucros, destruindo a natureza, disseminando a pobreza e degradando a dignidade humana, segundo eles.


Assim, seria preciso cultivar no coração humano e no sistema social uma ética comprometida com uma ecologia integral que abarque o cuidado com as múltiplas formas de manifestação da vida no planeta, inclusive a humana, que depende disso para sua sobrevivência como espécie. Isso implicaria modelar outro sistema socioeconômico e institucional capaz de favorecer a vida e dar-lhe precedência em tudo.


ADRIANO NOGUEIRA

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