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Confronto das ideias. Marchinhas devem ser retiradas do Carnaval por sugerir preconceito?

17:00 | 04/03/2017

Blocos de rua, como os cariocas Boitatá e Orquestra Voadora, não executaram músicas como “Maria Sapatão” e “O teu cabelo não nega”, por achá-las ofensivas. Essas músicas devem ser retiradas do Carnaval por sugerir preconceito ou violência?


SIM

 

Hilário Ferreira

hilario.ferreira@fate.edu.br

Professor e pesquisador da história e cultura negra cearense

 

Não creio que possamos entender a polêmica das marchinhas preconceituosas sem contextualizá-las dentro da realidade machista, homofóbica e racista que cotidianamente vivem mulheres, negros e homossexuais. De acordo com a ONU, no Brasil, a taxa de feminicídios é de 4,8 para 100 mil mulheres – a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Quanto aos homossexuais, o relatório anual sobre o assassinato destes, divulgado em 28/1/2016, pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), indica que 318 gays foram mortos em 2015 no País.


No caso do racismo, o mapa da violência de 2016 revela que morrem 2,6 vezes mais negros que branco vitimados por armas de fogo no Brasil. Por que o índice de violência contra estes grupos só cresce? Esta realidade não me parece besteira nem exagerada como alguns defensores destas marchinhas andam propagando.


Os que estão fora dos padrões aceitáveis da sociedade brasileira (negros, gays, deficientes, mulheres, índios) têm que enfrentar cotidianamente e de várias formas ao longo de suas vidas uma multiplicidade de ações que os desrespeitam e os inferiorizam. O uso destas músicas não se limita ao Carnaval. Quem é discriminado sabe muito bem do que estou falando. Um homem, hetero e branco dizer que isto é exagero me parece cômodo demais.


O debate deveria se voltar para o fato do porquê eles consideram natural continuar propagando músicas preconceitos que, segundo os dados acima, de longe não têm nada de ingênuo. Usam do argumento de que estas marchinhas são triviais. Mas os que apanham não esquecem e, numa realidade marcada pela violência do preconceito, desconfiamos desta trivialidade.


Sou a favor e parabenizo os blocos que resolveram combater essas marchinhas preconceituosas. Quando sou capaz de me pôr no lugar do outro, fica mais fácil entender, já que ninguém pode falar daquilo que não viveu.

 

NÃO

 

Marcus Vinicius de Oliveira (Marvioli)

marvioli@gmail.com

Agrônomo e folião


O glitter e umas três marchinhas foram o bode ioiô da sala deste Pré e deste Carnaval. Foram os hits da temporada popular-bacaninha. #Tocanãotoca #Usanãousa. E, enquanto isso, “Deu Onda”. Mas vamos à questão proposta. A cultura machista é estruturadora das violências em nossa sociedade. Partindo dessa premissa, toda e qualquer ação de enfrentamento ao machismo é bem-vinda. Mas, como tudo é relativo, vamos relativizar.


Muitos livros sagrados, fora do seu contexto e à luz da cultura de reparação, são mantenedores do machismo e da violência. Marx e Lobato, dentre outros, já foram questionados e revisados. E o que dizer de um bando de filósofos, na Grécia antiga, que tinham o prazer de filosofar enquanto mulheres e outros povos eram escravizados e nem voz tinham?


Mesmo assim, deram contribuições importantíssimas à cultura ocidental, no teatro (comédia e tragédia), na Matemática, na História, na Medicina e nas Artes Plásticas. Lembrando o grande Sócrates “só sei que nada sei”. E Aristóteles! Sem esquecer o glitter e as marchinhas, imagino que mais efeito teria se nós enfrentássemos, no dia a dia, a onda conservadora que assola o País.


Enfrentar a cultura machista que agride, violenta e mata mulheres, gays, negros e jovens. Enfrentar os programas de TV que cultuam a violência. Enfrentar as confissões religiosas que perseguem e violentam as religiões de matriz africana. Enfrentar a rede de televisão que controla o samba e o futebol.


Para os blocos, enfrentar as tentativas de enquadramento e normatização excessiva do poder público, como fez o prefeito em Belo Horizonte e tenta fazer o “merchan alcaide” de SP. Também resistir às tentações do mercado, sem negá-lo, fazendo um carnaval popular, público, com respeito às diferenças. E vale troça, bloco, baile, cordão, escola de samba, maracatu , afoxé. E como bem disse Luiz Antônio Simas: “Cada bloco deve cantar o que quiser e não cantar o que não quiser”.

 

ADRIANO NOGUEIRA

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