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Cleto B. Pontes. "Além de uma biografia"

17:00 | 04/03/2017

Cleto B. Pontes

cletopontes@uol.com.br

Psiquiatra

 

Em sua vertente emocional, o homem tem no cachorro o seu melhor amigo e no livro, o fiel amigo da intelectualidade. “Despretensiosamente”, o livro nos conduz a viagens, lugares e momentos desconhecidos. O legítimo escritor, o profissional, torna-se cuidadoso com suas palavras, atento aos detalhes dos cenários, fiel às fontes de consulta, o néctar de suas inspirações. Xica da Silva, a Cinderela Negra de Ana Miranda é exemplar. Sua habilidade narrativa no romance histórico demonstra como é possível delicadamente costurar fatos ao ponto de superar em muito o valor imagético de uma telenovela.

 

O cenário prevalente é Minas Gerais, à época do período imperial, focando sobremaneira o tempo de Xica da Silva e de sua mãe Maria Nina. De fato, a história brasileira tem muito pouco de dialética, fazendo jus ao bordão positivista da nossa bandeira republicana: ordem e progresso, que subliminarmente significa progresso desde que a ordem popular seja usurpada. O progresso está acima, comandado por qualquer que seja a entidade superior. A lei do Lavoisier faz sentido: aqui nada se cria, tudo se copia, tal qual a geração espontânea, desmantelada por Pasteur. Sem querer frustrar a curiosidade de novos leitores e nem corromper as ideias da autora, farei apenas três correlações entre os fatos do passado e do presente.

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O ex-governador do Rio de Janeiro, o sr. Sérgio Cabral, é uma Xica da Silva encarnada e esculpida. No poder tomou todos os vinhos de primeira e uísque em abundância. No comando, ele tentou até mesmo falar em inglês na Marquês de Sapucaí. Ele obrigou os seus coleguinhas a colocarem lenços na cabeça em uma farra em Paris e favoreceu a sua segunda esposa com um anel de quase um milhão de reais no dedo. Criou o seu próprio banco, o BC (Banco do Cabral). Xica era cavilosa, gostava do bom e do melhor. Ela bebia todas e obrigava os súditos a se embriagarem e deixar o sexo rolar a solto, como Cabral. Como nunca tinha visto o mar, impôs ao seu homem, João Fernandes de Oliveira, a construir uma réplica de navio em escala menor, a fim de navegar na sua terra em Tijuco, em um tanque juntamente com o seu amante e convidados especiais. O segundo sogro do Sérgio Cabral é riquíssimo, mas os seus mecenas eram os donos das grandes construtoras.


Lula com o seu pré-sal de saliva em abundância seria dom João V, que em um passo de mágica tirou Portugal do obscurantismo, com a descoberta de diamantes no Brasil, que na época apenas havia os diamantes das Índias. O País passou então a fervilhar de estrangeiros. Obviamente esta fartura como a de Lula não foi revelada no início do seu governo. Os “capitalistas” camuflaram ao máximo de tempo possível. O segredo foi revelado e o Rei determinou “ordem” no negócio. Lula ateu foi recebido pelo papa João Paulo II. Hoje talvez não fosse acolhido pelo papa Francisco, que abomina o roubo embora tenha afirmado que o Vaticano não é exceção. Dom João era também mulherengo. Ele teve um AVC e, segundo os médicos, a culpa era da sua amante italiana que o deixara paraplégico do lado esquerdo.


Moral da história: hoje temos 23 mil brasileiros privilegiados acima dos demais, graças ao foro privilegiado, mais do que o número de brasileiros aqui chegados a contragosto, alforriados, por meio do direito conseguido pelo trabalho duro e prostituição. Até quando teremos esses privilegiados nos três poderes que mais parecem feudos coloniais? Algo nos sinaliza que o Brasil está mudando, mas muito longe ainda de ser um país igualitário e justo com o seu povo.

 

ADRIANO NOGUEIRA

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