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Chuvas. Impacto ainda é pequeno para a economia

Mesmo com as boas chuvas de janeiro, indústrias e agronegócio vivem dias de estiagem e buscam alternativas para a permanente falta d'água no Ceará

17:00 | 04/03/2017

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As chuvas que banham o Ceará desde janeiro pouco têm contribuído para encher os 153 açudes. Apesar das precipitações, eles registram 6,7% da capacidade total do Estado em 2017, número inferior aos 7,2% de dezembro do ano passado, segundo dados da Companhia de Gestão de Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh). É certo que a prioridade da água que chega às torneiras é o consumo humano, mas a atividade econômica também precisa dela para funcionar. Agronegócio e indústria sentem que, mesmo com as previsões mais otimistas da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), que estima 43% de chances para que o volume de chuvas fique dentro da normalidade, o impacto é pequeno ou quase nulo.
[SAIBAMAIS] 

As lavouras do agronegócio, atividade que começou a despontar no Ceará, migram as culturas para outros estados. Buscam invernos melhores. “Não houve acúmulo de água suficiente nos açudes. As empresas só podem fazer um planejamento dos resultados da chuva. Depois de constatada a elevação, pode se pensar em algo”, destaca Carlos Prado, presidente da Itaueira Agropecuária, que removeu o plantio das lavouras de melão do Estado para os vizinhos Piauí, Rio Grande do Norte e Bahia.
 

Em 2015, a Itaueira Agropecuária respondia por 1,2 mil hectares no Ceará. No ano passado, caiu para 270 hectares da safra de melão. “Esse ano é zero hectare. Essa é a nossa expectativa”, afirma. Por falta de água, paralisaram as atividades de duas fazendas produtoras. Para completar, a desativação resultou na perda de 1,2 mil empregos temporários na região de Aracati.
 

A baixa segurança hídrica para as lavouras também levou Luiz Roberto Barcelos, presidente da Agrícola Famosa, a buscar outros estados para completar a produção de melão e melancia, como o Piauí. As atividades no Tabuleiro de Russas foram suspensas. As lavouras seguem na Chapada do Apodi. “Chegamos a ter no Estado 6 mil hectares de plantio. Hoje são apenas 3 mil. Temos a intensão de voltar para Russas, mas dependemos da chuva para recomporem as reservas do açude Castanhão”, finaliza.

Cipp
A situação no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp) é um pouco mais confortável que no Interior do Ceará. As empresas instaladas na poligonal estão situadas na linha de abastecimento de Fortaleza e Região Metropolitana, que recebe água do Castanhão. Mas a água que abastece indústrias pode minguar. “Vejo a situação como preocupante. Não existe indústria sem água. Para nossa operação, ela é essencial”, avalia Adauto Farias, presidente da indústria Cimento Apodi.
 

A iniciativa adotada pela Apodi foi reutilizar a água. 75% do solvente é aproveitado na composição de descargas e usado na jardinagem. Para completar o abastecimento da operação, há um poço profundo.
 

A Associação das Empresas do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Aec ipp), também destaca que a ação das chuvas não resultou em retorno substancial no âmbito do abastecimento. “Entendemos que a precipitação pluviométrica registrada em 2017 não é suficiente para afastarmos as vulnerabilidades”.
 

A Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) consome 3,9 m³ de água para cada tonelada de aço bruto produzido, ante os 6,9 m³ da média do setor no País. Para se desvincular do abastecimento do açude Castanhão, a empresa firmou recentemente uma parceria com a Cogerh (com o financiamento de R$ 13,8 milhões), para a utilização da água proveniente do aquífero subterrâneo localizado na região das dunas do Pecém e da Lagoa do Cauípe, para a perfuração de poços profundos. 

 

SAIBA MAIS
 

Capacidade dos açudes
A capacidade total de armazenamento dos 153 açudes é de 18,67 bilhões de metros cúbicos (m³), de acordo com a Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh). Mas o Estado registra apenas 1,2 bilhão de m³ . A bacia do rio Banabuiú apresenta 2,03% de sua capacidade (2,7 bilhões de m³). A bacia do rio Coreaú tem o maior volume de água registrado (98 milhões de m³ ou 31,77% da capacidade). 81 açudes do Estado estão com volume inferior a 30%  

 

Contra a seca

Ações do Governo para o setor produtivo
O Governo do Estado tem encabeçado medidas para evitar que a crise hídrica acosse ainda mais o setor produtivo. O primeiro “esforço de guerra” é ser mais flexível na liberação das outorgas de poços profundos. “Enxergamos que a atividade econômica rural, mas também a indústria de Fortaleza, têm complementado sua oferta hídrica com os poços. Isso não quer dizer que deixamos de garantir água superficial”, destaca Francisco Teixeira, titular da Secretaria de Recursos Hídricos.
 

Dentre outras ações estão, a médio e longo prazos, uma usina de dessalinização para abastecer Fortaleza e a exploração de água subterrânea de dunas da região do Cumbuco. 

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