VERSÃO IMPRESSA

A semana. O que foi destaque de 26 de fevereiro a 4 de março

17:00 | 04/03/2017

O alcance do escândalo


Érico Firmo

Editor-executivo de Cotidiano e colunista de Política

 

Difícil imaginar a dimensão do escândalo e o alcance da cadeia de corrupção que tinha a Odebrecht como principal pilar. A delação de Marcelo Odebrecht, na última semana, forneceu fartos elementos para cassação da chapa Dilma Rousseff (PT)/Michel Temer (PMDB). Pelo que se sabe até agora, mais um governo brasileiro deveria cair em função das revelações. Os três maiores partidos do País — PMDB, PT e PSDB — estão afundados no esquema. Em 32 anos de redemocratização, esses três partidos governaram por 29.


Mas, o alcance do escândalo vai além das fronteiras brasileiras. Na semana que terminou, a Justiça da República Dominicana rejeitou acordo com a Odebrecht para pagar multa pelo pagamento de propinas no País. Cerca de 40 países fecharam acordo de cooperação internacional para colaborar com a Lava Jato. Argentina, Colômbia, Equador, México, Panamá, Peru e Venezuela são alguns dos países com os quais a empresa busca acordo para poder seguir em atuação. A Odebrecht ameaça não apenas o governo brasileiro. A dimensão do esquema de corrupção arquitetado pode desencadear reação em cadeia em vários países.


Difícil encontrar registro conhecido de outro esquema tão grande e tão vasto. Isso é risco adicional para a Lava Jato. O esquema e os interesses são muito maiores que um partido e o governo. Assim como o desejo de abafar as investigações.


Oscar 2017: a imagem que resiste


André Bloc

Jornalista e crítico de cinema do O POVO

 

Se uma imagem persistirá mais do que qualquer outra na história recente do Oscar, ela será a do ápice da cerimônia realizada no último domingo. Nele, o acaso fez com que um grupo de produtores caucasianos tivesse de chamar os colegas negros ao palco para a (merecida) principal honra da noite.


Por toda a história, o filme dos brancos, o megamusical La La Land: Cantando Estações, e o dos negros, Moonlight: Sob a Luz do Luar, andarão juntos. Há o lado ruim. O vencedor, o primeiro filme LGBTQ premiado o melhor do ano, é um drama social negro, homossexual, com produção de US$ 1,5 milhão. O destino, porém, lhe negou um grito de resistência – o discurso empoderador foi engolido na confusão do momento.


Fico com a boa mensagem. Equívocos acontecem, mas, juntos, podemos superá-los – mensagem forte à retórica excludente de Trumps ou Bolsonaros. Os diretores Barry Jenkins, de Moonlight, e Damien Chazelle, de La La Land, sorridentes com seus Oscars na capa de uma revista e se derramando em elogios um ao outro. Em um meio tão competitivo, essa aproximação entre rivais tão opostos passa uma mensagem poderosa. O jogo em que vivemos é um só. Há uns com oportunidades sobrando, outros que almejam sonhos impossíveis. No Oscar, fica claro que podemos nos reconhecer e crescer juntos. Arte não é lugar para mesquinharia, é lugar para sonhos em comum, idealismos e objetivos irreais.


Chuvas e tempos de esperança


Mariana Lazari

Editora-adjunta do Núcleo de Cotidiano

O cenário é preocupante há cinco anos, mas a quadra chuvosa de 2017 começou no Ceará com dados que são de esperança — mesmo que repleta de prudência. As precipitações do último mês fizeram deste o fevereiro mais chuvoso no Ceará desde 2011. O volume (157,5 milímetros) superou a média histórica do mês em 32,8%. E as chuvas já refletem no volume de água dos açudes. Março, o mês historicamente mais chuvoso da quadra, ainda não chegou, mas a situação do Estado já é considerada melhor que a de 2016. Os dias têm tido aquela beleza que só o céu acinzentado consegue dar e a temperatura, especialmente ao anoitecer, está mais amena. É impossível não se alegrar.


Tudo isso, porém, não deve representar relaxamento de indivíduos e empresas em relação ao gasto de água. Acordar com o dia chuvoso e acreditar que aquilo que se vê é suficiente para a tranquilidade do Estado é erro grave. Não é “qualquer chuva” que fará com que o Ceará chegue a uma situação estável. As perdas de volume d’água são históricas e enormes e, assim, o equilíbrio depende de muita chuva — em Fortaleza e no Interior. Por isso, vai demorar a chegar. O fundamental — sempre — é não deixar de consumir água conscientemente e torcer pelos melhores prognósticos de chuvas.


Os sinais tênues de um Trump diferente


Guálter George

Editor-executivo do Núcleo de Conjuntura

 

A estreia recente de Donald Trump da tribuna da Câmara dos Representantes, no seu primeiro discurso do Estado da União como presidente dos Estados Unidos, pode ter oferecido os sinais esperados de que finalmente está se moldando ao novo papel a ele oferecido pelo destino e as circunstâncias. Há, naquele texto apresentado ao país, linguagem própria a um líder mais cuidadoso, até capaz de falar em consensos e fazer uso daquele chamamento de todo governante à unidade nacional, mesmo que de um modo diferente e menos claro. Sabe-se da existência, no entorno mais próximo do homem que hoje comanda a mais influente máquina política do mundo, um grupo que se esforça para fazê-lo entender da necessidade de uma mudança nas suas atitudes. Da filha ao núcleo político, no sentido mais institucional e partidário do termo, tenta-se mostrar que a nova realidade impõe mesmo sacrifícios pessoais sem os quais a travessia do mandato ficará mais dolorosa. Os sinais de que Donald Trump está cedendo ainda parecem tênues, fracos, mas de vez em quando aparecem. É ingenuidade esperar uma transformação de personalidade no nível radical que o caso exigiria, mas os primeiros e animados momentos da era Trump na Casa Branca testam a capacidade real que ele apresenta de adaptar situações como forma de torná-las mais favoráveis ao seu jeito de ser. Neste caso, porém, o jogo é mais duro e exigirá dele uma qualidade até hoje não testada, O empresário vai precisar ser muito político para resistir e sobreviver.

 

ADRIANO NOGUEIRA

TAGS