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Pequenos déspotas. Como lidar com filhos autoritários

| PAIS E FILHOS | O comportamento autoritário de uma criança não é inato e sim adquirido. A educação diz muito sobre o que o seu filho vai ser no futuro

01:30 | 18/01/2018

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As pessoas chegam ao mundo despidas de qualquer comportamento social. Um recém-nascido, por exemplo, quando empurrado para fora do útero da mãe, não chora porque deixou de ganhar o brinquedo da moda. Ele não grita até a pele ficar escarlate porque foi impedido de assistir televisão até tarde. Não atrapalha o diálogo dos adultos na sala de parto porque deseja a atenção dos pais só para si. Os “pequenos déspotas” são construídos.

[SAIBAMAIS]
Luana Timbó, psicanalista do Centro de Referência à Infância (Incere), compreende que, no comportamento infantil, teimosia e autoritarismo revelam menos sobre as crianças e mais sobre os pais. Tutores que, segundo a profissional, costumam não saber lidar com choros, vivem pressionados pelo trabalho e acreditam poder poupar toda e qualquer frustração com permissividade. “Mimar está mais próximo de ceder do que de trocar afetos”, aponta Luana.
 

Só que a responsabilidade não deve pesar toda sobre os ombros dos pais. Para a psicóloga Ana Ignêz Belém Lima, coordenadora da Clínica-Escola de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), esse comportamento está, também, associado ao contexto sociocultural vigente. “Tínhamos crianças praticamente sem direito, sem voz. Depois, com leis, vem-se repensando, colocando a criança no seu lugar de importância social e familiar”.
 

Além disso, tendo as mulheres ocupado seu lugar de direito no mercado de trabalho, a criação dos filhos deixou de ser tarefa exclusiva das mães e passou a demandar ajuste familiar. “Pais sobrecarregados acabam tentando compensar falta de tempo com presentes e concessões como deixar o filho fazer o que quer”, diz.
 

Acontece que isso dificulta ainda mais a imposição de limites. “Você não é amigo do seu filho. Antes, é pai e mãe. E pode ser um pai-amigo, mas você é o adulto e ele é a criança”, estabelece Ana Ignêz. Quando essa relação não fica explícita, de acordo com a psicóloga, as crianças perdem a referência dos pais. “Sentem-se, inclusive, abandonadas, descuidadas”.
 

Luana aconselha, ainda, que os pais não temam dizer “não”. “Às vezes ouvimos: ‘tenho medo de traumatizar meu filho se não deixar ele fazer isso ou aquilo’, quando o que é traumático é não saber lidar com faltas porque toda frustração foi poupada. É perigoso continuar achando que se pode fazer o que quiser na hora que quiser”.
 

Desde que nasce até a primeira infância, por volta dos cinco anos de idade, as crianças desenvolvem o que os psicólogos chamam de “personalismo”. “É muito importante, nesse período, ter sustentação e clareza de limites”, ensina Ana Ignêz. Para a profissional, às vezes, quando uma criança não quer estudar, ir para a escola, dormir na hora estipulada, participar de atividades com a família ou mesmo quando ela desobedece qualquer ordem, os pais têm de assumir o controle da situação. “E sustentar o ‘não’. Não precisam convencer o filho”.
 

Reflexos do comportamento autoritário das crianças são, basicamente, dificuldades na convivência social. A psicanalista Luana Timbó alerta que uma criança que é poupada de pequenas frustrações não tem como aprender a suportá-las não vai ter ferramentas para reagir bem a isso no futuro. “Tudo tem de ser do seu jeito. Ou não consegue funcionar e vira uma bola de neve de angústia, choro, agitação e agressividade”, afirma.
 

Há, também, consequências mais próximas, como dificuldade de aprendizagem e convivência com os colegas na escola. “A gente só aprende quando está aberto para o conhecimento, para o outro. A partir do momento em que o sujeito se fecha pra essa interação, dificulta. Não pelas questões cognitivas, mas emocionais”, compartilha a doutora em psicopedagogia, Rita Vieira. “Aprender deixa de ser prazer pra ser sacrifício, obrigação”, avalia. 

 

PARA PAIS DE CRIANÇAS MIMADAS E AUTORITÁRIAS 


> As crianças podem ter dificuldade de convivência, de lidar com frustração, de aprendizagem, de respeitar as diferenças e comportamento agressivo e destrutivo.


> Não se deve dar o poder de decisão que ele não tem capacidade de ter. Um almoço na casa de um amigo, num sábado, não pode ser frequentemente desmarcado simplesmente porque o filho, sem motivo, prefere ir para outro lugar.
 

> O pai não pode ter medo de dizer “não”.
 

> Não tente compensar a ausência em casa com presentes.
 

> Estabeleça rotina com horários e tarefas.
 

> Construa relação de confiança e companheirismo, mas sem confundir o papel parental com o de um amigo.
 

> Sem violência, mas com diálogo e restrições, fazer ele viver as consequências dos próprios atos.
 

> Respeitar os sentimentos dele, ainda que sejam de raiva ou de rancor, mas explicar que o comportamento agressivo não pode ser orientado pela emoção.
 

> Procurar ajuda profissional quando a situação estiver crítica.
 

> À escola, cabe identificar o comportamento autoritário e acolher a criança, dando a ela a oportunidade de se expressar. 

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