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Para delegada, a sensação era de ler os mesmos inquéritos

01:30 | 03/11/2017


Enquanto analisava os inquéritos sobre cada um dos homicídios registrados em Fortaleza, a delegada da Polícia Civil Socorro Portela, por vezes, recorreu ao documento anterior numa tentativa de evitar erros. É que as histórias dos assassinatos, de tão semelhantes, pareciam se repetir. Todas tinham como enredo principal a relação  com o tráfico e uso de drogas.
 

“Fiquei muito impressionada. Achava que estava lendo os mesmos inquéritos policiais. Os relatos são os mesmos. O sofrimento das famílias, o que uma mãe fala em um inquérito é a mesma coisa que outra mãe fala em outro. E são relatos de um sofrimento muito grande. Eu sempre parava e dizia ‘já li esse’. Voltava para ver e não era o mesmo”, detalhou.
 

Conforme a delegada, que já comandou a Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), de maneira geral, a maioria das vítimas teve o primeiro contato com as drogas pela maconha, tendo evoluído para a cocaína ou crack.
 

Estabelecida a relação com os entorpecentes, as vítimas, em sua maioria homens (95%), passava a cometer outros crimes para sustentar o vício. Para Socorro, isso explica o fato de grande parte das vítimas serem reincidentes em crimes graves, como homicídios e latrocínios, além do roubo, considerado o caso mais recorrente.
 

Desassistidas, conforme os membros da comissão, grande parte das famílias reagiu com “surpresa” ao serem procuradas pela Polícia, que buscava informações sobre as vítimas, quase todas residentes na periferia e fora das escolas. “Eles ficavam felizes de saber que alguém estava interessado no caso”, pontuou a delegada, ao defender políticas de prevenção efetivas que sejam encampadas pela sociedade civil organizada.
 

Para socorro, enquanto a situação não muda, as mães continuarão chorando as perdas de seus filhos. “Foi difícil ouvir cada uma das histórias dessas mães que ainda choram. Algumas desconheciam totalmente a vida que seus filhos levavam. Mas eram os filhos delas e temos que ter todo o respeito. Eram os meninos delas. Foi aquela mãe que escutou os estampidos dentro de casa e disse que, de alguma forma, já sentia que algo havia acontecido com o próprio filho”, completou. (Thiago Paiva)

ADRIANO NOGUEIRA

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