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Quatro adolescentes internos são executados após rapto

Os internos do Centro de Semiliberdade Mártir Francisca, na Sapiranga, foram raptados por um grupo armado que invadiu a unidade. Judiciário e Governo do Estado já sabiam de conflito entre facções que gerou ameaças

01:30 | 14/11/2017
O Centro de Semiliberdade Mártir Francisca abriga jovens com bom comportamento ou ato infracional leve JULIO CAESAR
O Centro de Semiliberdade Mártir Francisca abriga jovens com bom comportamento ou ato infracional leve JULIO CAESAR

 

Quatro adolescentes que cumpriam medidas socioeducativas no Centro de Semiliberdade Mártir Francisca, na Sapiranga, foram retirados do local e assassinados na vizinhança, na madrugada de ontem. Cerca de 20 homens fortemente armados invadiram o local. 

Eles teriam escolhido as vítimas de forma aleatória, conforme o titular da Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo (Seas), Cássio Franco. 

 

Situação de ameaça a adolescentes internos, que seria resultado da 

briga entre facções criminosas, já era conhecida pelo Judiciário e pelo Governo do Estado.

De acordo com o juiz titular da 5ª Vara da Infância e Juventude, Manuel Clístenes, a Justiça determinou que houvesse 30 dias de suspensão das atividades do centro para que a segurança seja restabelecida. “O Estado deve oferecer um plano em 15 dias para apreciação do Judiciário. Depois disso, caso o plano possa ser aprovado, o centro volta a funcionar”, afirmou. Assim, os mais de 40 adolescentes do centro foram entregues às famílias ontem.

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A Seas, pasta criada em 2016 para gestão dos centros no Ceará, informou que, inicialmente, o fechamento da unidade seria por apenas uma semana.

Os mortos tinham 13, 15 e 16 anos (2). Dois estavam no centro há menos de uma semana. Os outros estavam há cerca de um mês. Para Cássio Franco, a escolha dos jovens como vítimas se deu pelos bairros de onde vinham. Dois dos rapazes eram naturais de Russas.

Reuniões ao longo do dia, ontem, envolvendo representantes do Ministério Público do Estado, do Judiciário, da Defensoria Pública e do Governo tentaram discutir quais ações seriam necessárias.

 

Ameaças

“Não foi um conflito interno, era algo externo. (A partir das informações de ameaças) a segurança com a Polícia Militar foi reforçada, mas o que houve ontem extrapolou. O calibre, o armamento utilizado, foi algo que não era esperado”, disse Cássio.

Tanto o superintendente quanto o juiz afirmam que não há indícios de que os jovens mortos faziam parte de alguma facção. A declaração do superintendente tentou explicar o fato de que, há pelo menos dois meses, havia conhecimento sobre as ameaças sofridas por adolescentes. O juiz Manuel Clístenes contou que recebeu familiares e jovens que relataram a predominância, dentro do Mártir Francisca, de uma facção criminosa da Sapiranga. “Eles residiam em outras áreas e disseram que a maioria dos adolescentes no centro era de bairros dessa mesma facção”, lembrou.

Conforme o magistrado, seis jovens chegaram a ter a medida socioeducativa suspensa por motivo de segurança. Ele ressaltou que o Estado foi comunicado, inclusive, sobre a possibilidade de invasão do local. “As ameaças eram recebidas lá dentro mesmo, pelos outros internos. Eles diziam coisas do tipo ‘qualquer dia vão invadir aqui e vocês vão morrer’. Os mais amedrontados vieram até nós e fizeram o pedido de suspensão”, frisou.

A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) afirmou, através de nota, que as necrópsias dos corpos foram realizadas e, até o início da noite de ontem, apenas dois jovens haviam sido reconhecidos. De acordo com o titular da Seas, dois suspeitos dos crimes foram identificados. Até ontem à noite, não havia registro de prisões.

A unidade

O Mártir Francisca abriga jovens que possuem progressão da medida pelo bom comportamento ou que cometeram ato infracional considerado leve. “Os meninos participam de atividade externa na comunidade e lá têm outra rotina de funcionamento, que diferencia o centro da unidade de internação”, afirma Cássio.

SARA OLIVEIRA | JéSSIKA SISNANDO