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Dá nojo, mas comer insetos pode ser o futuro da alimentação

Projeto da UFC pretende estudar valor proteico de insetos e capacidade de corpo humano de absorver os nutrientes deles

01:30 | 10/11/2017

 

Canapé de marguerita, um suculento guacamole, feijão tropeiro com cheirinho de bacon e, de sobremesa, um brigadeiro de puro cacau coberto por uma farofa crocante. Poderia ser o cardápio comum, mas acrescente ao guacamole larvas de tenébrio, troque a linguiça do feijão por formigas tanajuras, receba a informação de que a crocância do brigadeiro é causada por grilos e larvas triturados, e, espetado no canapé, tem uma barata.

A essa altura você, caro leitor, deve estar de estômago revirado e fazendo caretas. Sei que sim, porque reagi da mesma forma. Mas, se disser que comi cada um desses insetos e nem achei assim tão ruim, você acreditaria? A degustação, parte do projeto dos cursos de Gastronomia e Agronomia da Universidade Federal do Ceará (UFC), foi realizada ontem durante os Encontros Universitários, no Instituto de Cultura e Arte (ICA).

Os alimentos foram oferecidos em degustação durante os Encontros Universitários na UFC FOTOS MATEUS DANTAS
Os alimentos foram oferecidos em degustação durante os Encontros Universitários na UFC FOTOS MATEUS DANTAS

Cheguei jurando que não comeria barata e larva. Bradei: “Como grilo e formiga, o resto não tem quem faça”. Paguei pela língua.

O canapé mais parecia um desses quitutes de festas de Halloween, mas a universitária Mara Cibely, 31, comeu com tanto gosto a iguaria que meus pés atrás se moveram alguns milímetros adiante. “Parece uma castanha”, ela disse — e isso bastou para tomar aquilo como desafio. Não podia uma barata guardar o sabor de castanha, exclamei. Decidi, então, comê-la sem o acompanhamento pomposo. Comi pura. A crocância e o leve sabor de amêndoa da barata desidratada me fizeram entender a comparação de Mara, mas não concordar. Não é ruim, mas não é maravilhoso.

A tanajura foi frita no bacon, então, não posso dizer que foi esforço comê-la. Os crec-crecs da farinha de grilos são infinitamente mais bem-vindos que os seus cri-cris. Comi feliz da vida dois brigadeiros. E os tenébrios... Bem, tive duas experiências com as larvinhas. Preparado, o tenébrio é sequinho e, ouso dizer, gostoso. Mas, não me perguntem o porquê, inventei de aceitar a sugestão do professor da Agronomia Patrik Luiz Pastoril e provei o bichinho vivo, se mexendo e estalando entre os dentes. Só posso dizer que erro a gente comete para dar exemplo e não repetir.

Incomum para mim e, acredito, para você também, a prática de comer insetos se chama entomofagia e é hábito de 2 bilhões de pessoas no mundo. Uma pesquisa recente da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicou que incluir insetos na alimentação deve se tornar necessário nos próximos 50 anos por escassez de alimentos no mundo.

É daí que parte o projeto, como explica o professor da Gastronomia Rafael Gurgel. “Queremos mensurar a quantidade de proteína que tem nesses insetos e a capacidade do nosso organismo de absorver a proteína. Para, então, podermos entender os insetos como uma fonte complementar ou de substituição de uma proteína animal do gado ou do porco”, explica. Isso porque a produção de insetos consome menos água, requer menos espaço e tem impacto ambiental muito menor que a produção de rebanhos de gado, detalha Patrik.

Ainda assim, o preço do quilo da larva de tenébrio, limpinho e próprio para consumo humano, pode chegar a R$ 300. “É caro, mesmo com a produção barata. O que acontece é que tem pouca oferta. As empresas não têm concorrência e aumentam o preço. Mas, se virar uma proposta, outras biofábricas podem surgir e o preço baixar”, projeta.

A ideia do grupo na UFC, neste primeiro momento, era sentir a recepção das pessoas para, só então, investir no projeto de estudo. E a contar pelas quatro sessões de análise sensorial (cada uma para 50 pessoas) lotadas e com senhas disputadas, pode ser que daqui a alguns anos eu e você nos reencontremos com baratas — não voadoras — nas nossas barrinhas de cereal enriquecidas com proteína. (colaborou Marcela Benevides)

 

DOMITILA ANDRADE