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Como o tráfico impulsiona os homicídios

É elevado o número de usuários de drogas e traficantes entre as vítimas de homicídios, aponta estudo

01:30 | 03/11/2017
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Entre os 779 homicídios que tiveram alguma relação com o tráfico ou uso de drogas em Fortaleza, de janeiro a julho deste ano, em 88% (685 casos), o envolvimento era direto. O levantamento aponta que, para além de influenciar diretamente no cometimento de outros crimes, o tráfico de entorpecentes impulsiona, de maneira significativa, o número de mortes registrado na Capital.
[SAIBAMAIS] 

Conforme o levantamento realizado pela Comissão de Estudo do Perfil das Vítimas dos Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLIs) — exceto os latrocínios —, 654 vítimas traficavam ou eram usuárias de drogas. Além disso, 64% delas possuíam antecedentes criminais.
Para chegar a tal resultado, o grupo, formado por dois policiais civis e dois militares, liderado pela delegada Socorro Portela, analisou, um a um, todos os Boletins de Ocorrência (BOs) e inquéritos sobre os crimes. Também foram consultados os sistemas de informação da Polícia Civil, do Tribunal de Justiça do Ceará (TJ-CE), além de informações cedidas pelos órgãos de inteligência das secretarias da Justiça e Cidadania (Sejus) e da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Familiares das vítimas e testemunhas também foram ouvidos.
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“Realizamos um trabalho científico, laboratorial e de campo. Nós fomos até esses locais. E, na maioria, essas vítimas morreram muito perto de suas casas. Tanto que, por vezes, as próprias mães disseram que chegaram a ouvir os estampidos. São locais muito vulneráveis. E uma pessoa que vive naquelas circunstâncias não tem condições de dar valor à própria vida. Como vamos exigir que aquele ser humano dê valor a vida dos outros?”, questionou Socorro.
 

Outro dado relevante apontado pela pesquisa foi o de que, do total de mortos, 47% fazia parte de alguma facção criminosa. O número, porém, pode ser ainda maior, visto que outros 47% dos casos ainda estão em análise pelos órgãos de inteligência. Conforme o estudo, 24% das mortes está diretamente relacionada à disputa entre grupos criminosos.

Estigma
 

Sociólogo e coordenador do Laboratório de Estudos da Conflitualidade e da Violência (Covio) da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Geovani Jacó alerta para os riscos de que a pesquisa, embora relevante, sirva para justificar continuidade das intervenções de políticas ineficazes, como a mera repressão policial.
 

“Não se combate diretamente a indústria do narcotráfico. Quando se alude para isso, é para justificar o modus operandi da Polícia, que não vai na raiz do problema, mas apenas na compreensão insana de uma guerra pelo enfrentamento. Na supervalorização midiática da apreensão de drogas e repressão do varejo cotidiano. 

 

Fundamentalmente, no ataque ao pequeno usuário”, avalia.
Para Jacó, as políticas vigentes proporcionam a estigmatização dos usuários e acabam por justificar o extermínio visto nas ruas. “Se naturaliza, de forma brutal e preconceituosa, a morte da vítima e, até mesmo, as altas cifras das mortes”. (Thiago Paiva) 

ADRIANO NOGUEIRA

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