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Jornal

Ponto de vista por Glaucíria Mota Brasil

10/10/2017 01:30:00

Esses conflitos entre facções criminosas se deslocaram do Sul/Sudeste para o Norte/Nordeste nos últimos dez anos como tem se visto no crescimento da violência e dos homicídios e, assim como nos conflitos envolvendo o sistema de encarceramento no Rio Grande do Norte, Ceará e Amazonas. O Brasil não tem política de segurança pública nem penitenciária e age pontualmente frente às crises que explodem nesses setores. Apostou no encarceramento em massa e possibilitou a organização de facções criminosas como o PCC, Irmãos do Norte, GDE e outras. Assim como negligenciou as políticas públicas de assistência social, saúde, habitação, educação e de geração de emprego para as populações vulneráveis das periferias das grandes cidades; submetendo estas aos favores e agenciamentos de criminosos. Essas populações passaram a conviver com mortes e execuções brutais como convivem com a falta de saneamento básico, limpeza e iluminação pública, postos de saúde, escolas e outras obrigações da gestão pública que lhes possam garantir condições mínimas de dignidade humana e cidadania.


Somos uma sociedade forjada pela violência cruel dos donos do poder, tanto por vias ”legais” como ilegais. Somos uma nação que passou por mais de 300 anos de escravatura e tem a mais terrível das heranças que é levar consigo “a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir” como temos visto nas mortes praticadas na periferia com ritual de crueldade. São práticas históricas de punição e suplício dos corpos de suspeitos e/ou condenados por meio de espancamentos cruéis até a morte, enforcamentos seguidos de esquartejamentos, queima de corpos vivos são cicatrizes na constituição da sociedade brasileira. E isso, de vez em quando explode como método de dominação das facções criminosas para a conquista e manutenção de seus domínios sobre a população de determinados territórios em que disputam mercados para seus negócios e agenciamentos. São práticas cruéis que não se limitam à destruição da vida do inimigo, é preciso destruir o corpo para apagar a memória deste. São práticas que rompem com a condição de humanidade de criminosos e mortos. Enquanto não houver políticas públicas estratégicas de inserção nesses territórios, a violência vai continuar se expandindo por meio de crimes brutais.

 

por Glaucíria Mota Brasil


Socióloga e coordenadora do Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética, da Universidade Estadual do Ceará (Uece)


Adriano Nogueira

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