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Homicídios: Da pacificação à guerra

11/10/2017 01:30:00
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Novos indícios reforçam a teoria de que a trégua firmada entre facções criminosas contribuiu para a queda e posterior aumento dos homicídios no Ceará. Após a ruptura deste ano, bairros de Fortaleza cujas comunidades haviam sido “pacificadas” registraram altas consideráveis nos assassinatos. O Cristo Redentor teve o crescimento mais discrepante, com variação de 540% nos oito primeiros meses de 2017, numa comparação com igual período do ano passado.

[SAIBAMAIS] 

Os dados foram obtidos pelo O POVO junto à Secretaria Municipal da Saúde (SMS), por meio da Célula de Vigilância Epidemiológica (Cevepi), que monitora a ocorrência dos homicídios em colaboração com o Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência. As estatísticas são georreferenciadas pelo viés da saúde pública. A contabilização dos crimes se dá pelos locais de moradia das vítimas e não pelo lugar das ocorrências. A distância média entre o domicílio e o cenário das mortes, porém, é de apenas 500 metros.

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A Vila Velha e a Barra do Ceará, ambas na mesma região, completam a relação dos três primeiros bairros que apresentaram as maiores variações, com 440% e 433%, respectivamente. O levantamento aponta ainda que o Jangurussu, onde recentemente foi descoberto um apartamento que funcionava como “tribunal do crime”, para tortura e morte de faccionários rivais, concentrou a maior quantidade absoluta de casos. De janeiro a agosto, 72 pessoas foram mortas no bairro.

 

“Queda anormal”


Especialistas ouvidos pelo O POVO defendem que alterações repentinas no número de homicídios, sobretudo de maneira acentuada, como a ocorrida em 2016, raramente se devem a políticas públicas de médio e longo prazos. Numa analogia à saúde pública, alguns ilustram o fenômeno da queda com o da criação de vacinas para combater epidemias de vírus que matam milhares de pessoas.

Os efeitos são imediatos.


Para eles, a recente redução dos homicídios em Fortaleza, que não se distribuiu de maneira homogênea, sugere que um evento raro e imprevisível teria acontecido. Em bairros como o Bom Jardim, os índices se mantiveram altos. Alinhado à conjuntura da Segurança Pública à época, a leitura feita é que os pactos de não agressão entre facções proporcionaram a queda, cujo tamanho também sugere o poder desses grupos.


“O que podemos supor é que esses acordos tiveram tanta implicação nos territórios que reduziram, significativamente, as mortes violentas. Ao mesmo tempo, a quebra, relatada nas comunidades, aumentou os homicídios, refletindo nos presídios e na interação dos territórios com a Polícia. As mortes por intervenção policial aumentaram (80,6%) e as mortes de policiais também”, analisa o sociólogo e membro do comitê, Thiago de Holanda.


O pesquisador detalha que, durante trabalho de campo em 2016, equipes presenciaram relatos dos pactos proibindo crimes nos territórios, bem como as ameaças após a ruptura. “A mãe de uma das vítimas chegou a dizer que, caso os pactos tivessem chegado antes, ‘meu filho não teria morrido’. Outros falavam que essa paz de bandido não duraria muito. E, de fato, não durou”, completou. (Thiago Paiva)


RESUMO DA SÉRIE

O POVO iniciou, no último domingo, série de reportagens e entrevistas sobre como o fim do pacto entre facções criminosas transformou territórios de Fortaleza em zonas de combates e de barbárie 

Adriano Nogueira

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