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Famílias reclamam de burocracia para acesso a tratamento para bebês com síndrome congênita

01:30 | 30/10/2017
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Quando explodiu, em 2015, a epidemia da síndrome congênita do zika impulsionou no Brasil a criação de uma rede de assistência resumida em diagnóstico rápido, encaminhamento aos serviços de saúde pública e Benefício de Prestação Continuada (BPC). Contudo, famílias no Ceará relatam dificuldade no acesso ao tratamento e criticam os requisitos para o auxílio financeiro.


“Eu era costureira. Deixei de trabalhar pra cuidar dela”, compartilha Jacqueline dos Santos Martins, 27, mãe da Ketlyn Vitória, de um ano e oito meses. A mulher diz que precisou abdicar do seguro-desemprego para receber o BPC, já que, para ter direito ao benefício, é preciso que a renda por pessoa na casa seja menor que ¼ do salário mínimo. “E tudo é muito burocrático, difícil”, desabafa.


Diariamente, Ketlyn usa fraldas e toma remédios que nem sempre a mãe consegue gratuitamente pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Além disso, duas vezes por semana, a família precisa se deslocar para a policlínica, em Caucaia, onde mora, para fazer a estimulação precoce. “Eu consegui um transporte, mas tive de ir na Defensoria (Pública). Falam pra procurar a Sesa, mas lá só fazem enrolar a gente. Enquanto isso eu tava tirando do bolso”, narra Jacqueline. E reclama que, toda vez que solicita o carro, ouve reclamação. “É humilhante. Como se eu tivesse pedindo carro pra passear. Se eu tô atrás é porque tô precisando”.


“Eles querem que você seja miserável mesmo, que esteja passando fome, pra receber (o BPC)”, reforça o funcionário público Raimundo Nonato dos Santos Sousa, 33, pai da Ana Lis, de um ano e sete meses, que não tem direito ao benefício. Nonato também reclama da dificuldade no acesso a novas terapias. “Terapia aquática não tem (pelo Governo). A gente descobriu uma em Messejana, em Fortaleza, mas não é gratuita”.


A respeito do transporte para as policlínicas, a supervisora do Núcleo da Saúde da Mulher, Criança e Adolescente da Sesa, Silvana Napoleão, informa que, quando não disponibilizado pela própria unidade de saúde, o serviço é pactuado com as prefeituras do Interior. “Catorze das policlínicas (existem 19) têm transporte próprio para buscar as crianças”, garante.

ADRIANO NOGUEIRA

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