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A busca pelos sem-escola

Eles são menos de 5% das crianças e adolescentes, mas somam milhares de jovens que deixaram a escola ou nem chegaram a frequentar. Governos, ONGs e até alunos tentam mapear quem são e levá-los para sala de aula

16/10/2017 01:30:00
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Era quase meio-dia de uma quarta-feira em Fortaleza quando, de mãos dadas com a mãe e a irmã, um menino de cinco anos de idade, franzino e com os cabelos castanhos ressequidos pelo sol, cruzou o viaduto que interliga as avenidas Oliveira Paiva e Deputado Paulino Rocha. Diferentemente das muitas crianças que, naquele horário, costumam ser apanhadas nas escolas e levadas para casa, ele não vinha de nenhuma. E nem iria à tarde. O motivo, segundo a mãe, seria porque a família não tem casa.


No Ceará, a quantidade de crianças de quatro e cinco anos de idade frequentando a escola cresceu 18% em 14 anos. Saiu de 81,1% em 2001 para 95,7% em 2015, de acordo com dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica. Nesse período, as taxas de matrícula de meninos e meninas entre sete e 14 anos na rede de ensino também aumentaram, de 93,7% para 97,4%.

[SAIBAMAIS]

São 4,3% de crianças de quatro a cinco anos fora da escola. Na faixa de sete a 14 anos, são 2,6%. Percentuais aparentemente ínfimos, mas que representam dezenas de milhares de jovens no Ceará, possivelmente vulneráveis e sem instrução. Entidades governamentais e não governamentais tentam mapear quem são e encontrar estratégias para levar educação a essas crianças e adolescentes.


Convergência de fatores dentro e fora da escola dificulta a permanência dessas crianças e adolescentes na rede de ensino. Dos que não estão matriculados, há os que começaram o ano letivo e, por algum motivo, abandonaram os estudos; os que até concluíram o ano, mas, no seguinte não retornaram, configurando a evasão; e os que, como o menino de cinco anos que peregrinava pela Oliveira Paiva, nem chegaram a ocupar um lugar em sala de aula.


“Eu tava pra ganhar um apartamento”, disse a mulher de 35 anos, mãe do menino e de outros nove. Ela comenta que quer ter residência fixa antes de matricular os filhos. “Pra não ficar nesse tira e bota, tira e bota”, explicou sobre a vida nômade que leva.


Gravidez na adolescência


No ano passado, antes de engravidar de um rapaz maior de idade, quando ainda cursava o primeiro ano, a vida de uma adolescente de 17 anos, moradora do Parque Genibaú, era exclusivamente dedicada aos estudos. “Não tinha como eu ficar com a cabeça em outra coisa”. Agora, a prioridade para ela é a filha.


O abandono da escola, ela conta, aconteceu ao fim da gestação. Devido ao inchaço do corpo, não conseguia escrever nem percorrer a pé o trajeto entre sua casa e a escola. “Meu padrasto começou a me levar e a Julieta (uma das coordenadoras da unidade) vinha me deixar”. Começou a fazer provas em casa. Em março deste ano, deu à luz.


Hoje, com a criança de seis meses no colo, a jovem é constantemente chamada à escola para tratar do seu futuro acadêmico, interrompido devido ao puerpério e, logo em seguida, ao tratamento de pneumonia da filha. Por causa das condições precárias de onde mora, a criança adoeceu logo no segundo mês de vida. “Ela ficou internada dez dias. Aí, quando fez dois meses, deu de novo a recaída. Mas, nesse período, ela não ficou boa. Por isso, não fui. Não continuei no colégio. Porque ela tava doente e eu não queria deixar com minha mãe. E, também, porque ela só mamava”.


Orientada pela direção da escola, já que não pode levar a filha para a sala de aula, não quer deixá-la em casa e pretende dar continuidade aos estudos, a jovem se matriculou em um Centro de Educação de Jovens de Adultos (Cejas) do Estado. “Trago as coisas (material escolar) pra casa e faço aqui mesmo. Anoto o dia da prova e vou lá só pra fazer”.

Luana Severo

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