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Jornal

Dependente químico usa desenho como terapia e luta por tratamento

Tinta faz aprumar o traçado do pedreiro, que busca o que dê foco na vida e retire vícios. Encaminhado ao Caps, aguarda internação. Estado tem 27 vagas disponíveis para recuperação de dependentes de álcool e outras drogas

18/08/2017 01:30:00
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Ele aguarda vaga na calçada perto do Desafio Jovem, numa das ruas próximas à avenida Silas Munguba, no Passaré. Na camisa, a inscrição Preto no Branco faz duvidar o colorido que foi (e ainda pode ser) a vida do jovem pedreiro de 27 anos que O POVO opta por identificar apenas pelo primeiro nome: José.


Aos 6 anos, a tinta e o papel o fizeram se descobrir, entre os traçados, desenhista. Aos 12, loló e, ao longo dos anos, maconha, crack e cocaína lhe roubaram o prumo da vida. Nos momentos de lucidez, pincela céu, rua, tempo. Uma flor. É um escape que encontrou para fugir do vício enquanto espera pelo tratamento talvez definitivo.


“O que eu mais gostei foi de desenhar minha mãe. E eu cheguei e dei de presente pra ela. Ela ficou morta de feliz”, confessa, com olhar de tristeza.


José foi encaminhado para um Centro de Apoio Psicossocial (Caps), da Prefeitura, onde deve ter acompanhamento de médicos, psicólogos e assistentes sociais. “Daqui para frente, eu quero me regenerar e recuperar a confiança da minha família”. Mas ainda espera vaga de internação. Quer uma segunda chance — porque, a primeira, já foi desperdiçada. “Eu me internei em um abrigo, mas não aguentei mais de uma semana. Ficava doido querendo usar a droga. Agora, eu estou disposto. De verdade”.

[SAIBAMAIS]

Uma Bíblia protestante serve de forro para os traçados. “Eu desenho com o que tiver”, diz, enquanto faz, com caneta preta, uma flor.

Atendimento

A assistente social Lucivânia Sousa, que atua em abrigos da Secretaria Especial das Políticas sobre Drogas (SPD) do Estado, afirma que José não tinha condições de ser internado em nenhuma comunidade terapêutica porque tinha feito uso de droga nos dez dias que antecederam a ida à secretaria. “Nós o encaminhamos para ser atendido no Caps (Centro de Apoio Psicossocial, da Prefeitura) com médico para que faça uso da medicação para se abster da utilização”, informou.

 

A assistente social diz que nas comunidades terapêuticas do Estado, as pessoas em reabilitação não têm condição de conviverem com usuários que não passaram por processo de desintoxicação.


Desafio Jovem

Cristina Munguba, presidente do Desafio Jovem e filha do médico Silas Munguba, fundador da instituição, diz que a situação financeira da entidade é de muito aperto. Apesar de ter capacidade para atender a 40 pessoas, somente dez estão em tratamento por falta de investimento. O fato de estar em débito com tributos do Governo e da Prefeitura faz com que a entidade não consiga renovar a parceria com o poder público. “E também não conseguimos que empresas invistam porque elas não terão isenção fiscal”, lamenta.

ANGÉLICA FEITOSA

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