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A Fortaleza que completa 413 anos

Destaques na história de Fortaleza, a Barra do Ceará e a comunidade do Morro de Santiago lembram hoje a fundação do Fortim de São Tiago. A construção foi a primeira a ser levantada, em 1604, e completa 413 anos

25/07/2017 01:30:00
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A pergunta era outra, mas quem guia a conversa é dona Socorro. “A gente veio aqui porque é o dia…”. “Do aniversário de Fortaleza, eu sei”, interrompe de supetão. Se fosse ver, o completar de anos da Cidade já vai longe — 13 de abril é a data oficial. Mas é que são muitas as Fortalezas e, ali na Barra do Ceará, no Morro de Santiago, a auxiliar de serviços gerais Socorro Aragão, 56, explica: neste 25º do mês sete, faz 413 anos da fundação do Fortim de São Tiago. “Foi o fortim que principiou a história desse nosso pedaço de areia”, defende.

[SAIBAMAIS]

A afirmação de Socorro ganha força nos estudos do historiador Adauto Leitão, pesquisador de marcos construtivos e um defensor da versão polêmica de que a história da Capital se inicia pela Barra. “Existe no bairro essa tradição de memória oral de que Fortaleza nasce na Barra.

Há o perfil militar-estratégico na ocupação de Pero Coelho e Martins Soares Moreno, mas um traz a família e o outro coloca dinheiro próprio, isso é indício de que houve interesse em povoar”, comenta Adauto. O decreto de criação de Fortaleza só veio 122 anos depois, mas certo é que onde hoje é o Morro de Santiago aportou o fortim levantado pelo português Pero Coelho.


Não restou vestígio físico da construção. Há um Marco Zero, e o nome do fortim foi ficando no morro e também batiza uma rua, uma travessa e uma praça. O morro é hoje lugar de contrastes que vão se mostrando nos detalhes.


A alegria das músicas que vão se misturando a cada passo dado e da meninada correndo livre pela rua dividem lugar com o senhor que pede para que procure outro morador para falar. “É que aqui a gente é vigiado”. A areninha de grama sintética onde a bola não para de rolar é referência se a pergunta for se ainda há conflito de facção, depois que a Polícia ocupou. “Tem ainda, sim, é bem menos. Mas as ruas mais pra direita da areninha, ainda tem muita rixa”, comenta outra moradora que pede para não ser identificada.


Uma das primeiras a chegar no morro, Maria Eunice Pereira, 85, a dona Nicinha, só deixa a paixão pelo lugar e a voz firme vacilarem porque carrega o pesar que só traz quem viu as vidas dos seus se perderem violentamente. “Mataram três netos meus e é difícil falar com alguém daqui que não tenha perdido alguém assim”.


Para mudar isso, dona Nicinha, que ajuda a cuidar de uma biblioteca aberta à comunidade, acredita que só com projetos sociais, com leitura, com uma cooperativa que gere renda, propõe. “Mas a gente ainda é muito esquecido”, a despeito da importância histórica do lugar. Ainda assim ela nunca pensou em sair de lá.


A vista bonita — com ponte sobre o rio Ceará, encontro de águas salgada e doce e um pôr do sol de tintas fortes e apaixonantes — é querida e defendida. Ela relembra com os olhos marejados a primeira vez que alcançou essa beleza. “Cheguei aqui com meus seis filhos em 1992, só tinha areia e mato. A vista não dava pro mar. O meu foi o primeiro barraco. Depois que tiraram a areia é que deu pra ver. Era uma lindeza, quando eu vi, tinha certeza que era esse o meu lugar”, conta.

 

Saiba mais


O Ceará foi relegado a segundo plano dentro do modelo de colonização portuguesa. Conforme aponta historiografia oficial, a conquista do litoral cearense se apresentou como necessária à estratégia militar, na tentativa de expulsar franceses do Maranhão e servindo de ligação entre Pernambuco e a região Norte do País.

Pero Coelho, então capitão-mor, organizou expedição partindo da Paraíba, rumo ao Maranhão. Após batalha com índios na Ibiapaba, a bandeira portuguesa desceu ao litoral. Em 1604, Pero determinou a fundação do Fortim de São Tiago e do povoado de Nova Lisboa às margens do rio Ceará. A seca, entre 1605 e 1607, o fez abandonar o País.  

 

Serviço

 

Conversas flutuantes – Aniversário da Barra do Ceará
Quando: hoje, às 8h30min
Onde: no píer da foz do rio Ceará 

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