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Estudantes de escola pública de Fortaleza lançam livro de contos de suspense

Vinte alunos da EEFM Cesar Cals usaram a imaginação e escreveram contos inspirados pelo autor gótico Edgard Allan Poe

01:30 | 10/04/2017

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Descobrir-se escritor, se inspirar para uma produção textual e procurar estilos literários que prendam a atenção do leitor. Para 20 alunos do nono ano da Escola de Ensino Fundamental e Médio (EEFM) César Cals, essas características - próprias de grandes nomes da literatura - foram uma realidade na rotina de criação. Reunindo contos que trazem suspense, ficção e até um pouco do macabro, eles lançaram o livro “Não Abra”, a partir do que aprenderam nas aulas de português.

 

Um jogo de cartas que pode levar à morte. “Pensei em algo que assustasse mas que acabasse bem. Todo mundo quer um final feliz”, contou o estudante Daniel Lima de Oliveira, 15. Para ele, a maior dificuldade em escrever é achar as palavras certas, que consigam traduzir seus sentimentos e fazer com que o leitor também os sinta. “Aí eu vou escrevendo, escrevendo…gosto muito de poesia também, ajuda um pouco”, disse.

A mãe de Daniel, a dona de casa Ana Gerusa de Oliveira, 41, contou que o filho sempre foi fã dos livros. “Lembro do primeiro livro que ele levou para casa, o Diário de uma Banana. Ele mudou muito depois disso. Queria ser jogador, mas agora fala em ser médio. Fico com orgulho e se ele continuar assim seu futuro será brilhante”, projetou. Discutir, ponderar, reunir e imaginar, juntos, fez com que os alunos percebessem melhor suas capacidades.

 

“Tentei puxar pelo psicológico, porque prende mais. Aprendi isso lendo. Não vou me atrair tanto por algo que não seja diferente”, contou Fernanda Milerio de Queiróz, 17. Ela escreveu o conto “O Jogo” e já pensa no próximo texto, focado ainda mais na psicologia. Fernanda gosta de misturar o fictício ao fatídico. “Acredito que o psicológico mexe mais com a gente do que o físico, a gente sofre ou é mais feliz a partir do que se pensa”, afirmou.

 

PROFESSORES

A estratégia da professora de língua portuguesa da escola, Lúcia de Fátima Sasso, foi oferecer vários títulos para que os alunos pudessem escolher a leitura predileta. A criação dos alunos partiu de um escritor norte-americano, chamado Edgard Allan Poe, conhecido pelo gênero gótico. “Como eles gostam muito de suspense, passei um curta sobre um dos contos do Poe, o Gato Preto, e eles ficaram encantados”, lembrou. O conto traz a história de um gato assassinado cruelmente pode seu dono. “Logo apareceu quem quisesse defender o gato, fizeram carta de desabafo, cordel, Boletim de Ocorrência e até as memórias póstumas do gato”, contou a professora.

 

E foi assim, instigando e os deixando à vontade para criar, que o livro Não Abra surgiu, seguindo uma lógica que eles chamam de psicologia reversa - não abrir significa depsertar o desejo de o fazer. Lúcia acredita que o despertar para a leitura acontece quando se sabe o porquê e para quê de ler. O apoio, então, torna-se fundamental. “Na primeira escrita, muitos começaram com ‘era uma vez’ e com alguns erros da gramática normativa mesmo. Desvios decorrentes da manifestação da oralidade na escrita”, ponderou.

O diretor da EEFM César Cals, Eliseu Paiva, sabe a importância de valorizar o que os alunos querem e sentem. A parte estrutural desse apoio acontece com seis aulas diárias, disciplina de redação e uma biblioteca ampla. O livro foi produzido pelos alunos e confeccionado com recursos da escola e dos próprios professores. “Queremos que alunos de outras salas também escrevam, sejam protagonistas. E aguardamos mais apoio da Seduc (Secretaria Estadual da Educação)”, disse.

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