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A volta às aulas nas diversas fases da vida

O início do ano letivo instiga, preocupa, exige atenção. Seja no infantil ou na educação de adultos, a motivação e o interesse precisam ser valorizados

01:30 | 23/01/2017

Sara Oliveira

saraoliveira@opovo.com.br

 

Cartazes de “bem-vindos”, apresentação de novos professores, uma passadinha do coordenador pelas salas e muitas orientações. Começou mais um ano letivo e, junto dele, uma imensidão de sensações e incertezas. Do infantil à vida adulta, entrar em uma sala de aula após quase dois meses distante gera ansiedade e expectativas. Seja com o despertador que tocará mais cedo ou com as conquistas a partir do que se aprende.

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“Como esse momento vai acontecer depende muito do contexto familiar, da motivação e até insegurança de filhos e pais. Os maiores já estão adaptados, já passaram por essa fase muitas vezes”, avalia a neuropsicóloga Rosane Rocha. Os ciclos que se iniciam junto à retomada das aulas precisam de preparação, incentivo e motivação. Não somente no momento de recepção, mas durante todo o ano.


“É um trabalho que precisa ser reforçado todo mês. Frases construtivas que estimulem, para que ele (o aluno) não desanime. Para que ele tire as dúvidas e que saiba que a escola é o espaço para isso”, destaca a especialista. E o acompanhamento cabe também aos pais, que devem abrir canais de diálogo com os filhos e saber quando e como ajudar no processo de recomeço. “É preciso que haja a singularidade de cada aluno, que suas potencialidades sejam reconhecidas e que as dificuldades sejam identificadas”, complementa a neuropsicóloga.


Para a coordenadora do curso de Pedagogia da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Jeannette Ramos, o mais importante da relação família/escola é o conhecimento do projeto pedagógico da instituição. “Muitos pais estão mais voltados à comodidade e à localização da escola. Isso pode ser um problema, porque as perspectivas ficam diferentes”, pondera. Nos primeiros anos de vida, a conexão entre perspectiva e pedagogia torna-se ainda mais importante.


Conhecendo bem a escola, a família consegue se preparar para os desafios do início do ano, que podem ser uma nova sala, outra escola, a série seguinte, o amigo que não está mais na sala. “Toda mudança é um recomeço e isso se dá em todas as fases. Não tem uma fase mais fácil ou difícil, todas têm desafios do ciclo da vida. A questão não são os problemas, mas como lidar com eles”, analisa Jeannette.


A especialista vai mais longe quando fala de como o projeto pedagógico pode ser decisivo na hora de retomar uma rotina de estudos, leitura, compromissos e dedicação. “Infelizmente na maior parte das metodologias do Brasil o adolescente, por exemplo, não vai à escola dizendo ‘poxa, mais um ano fazendo marcenaria, coral, teatro, que legal’. Ele diz ‘poxa, mais um ano estudando química e matemática’. É importante uma metodologia que faça a volta às aulas ter um sentido, para a criança e para a família. Um sentido social, que vai inspirar algo novo”, reforça.

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Sem descanso

Pelo segundo ano consecutivo, Sabrina Pereira Gomes, 17, precisou assistir aulas de recuperação em química e matemática. Acabou não tendo férias. O retorno à escola, na verdade, será precedido por provas. “Quando eu não ficava de recuperação era mais emocionante chegar ao colégio depois de quase dois meses, rever os amigos do ano passado, ver os novos”, afirmou Sabrina.


O ano letivo começará com cansaço. Por isso, a volta às aulas precisará ser de estímulo, principalmente por ser ano de Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O saldo de aprendizado, porém, é positivo, ressalta Sabrina. “Esse mês de estudos vai acabar ajudando, porque muita coisa eu não aprendi no decorrer do ano e consegui aprender na recuperação. Muita matéria que cai no Enem”, pondera a estudante.


Para Sabrina, a escola está sempre inovando na forma de repassar os conteúdos. Isso faz o processo de retorno ser mais agradável e ameniza a sensação de “ah, as aulas já vão começar”. Ensino de campo, novas propostas e feira das profissões são iniciativas que ela destaca como positivas. “Penso que vai ser meu último ano na escola, então vai significar muito. Eu sempre interagi muito no colégio. Então ficar direto é até uma forma de aproveitar”, afirma. 

 

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Foco e resistência

“É bom voltar das férias, porque a gente está acostumado a ter aula e quer realizar cada vez mais sonhos”. Assim definiu o início do ano escolar de 2017 o estoquista Damião Sousa Cruz, 31. Ele aprendeu a ler e escrever há aproximadamente cinco anos, quando começou a fazer parte de um projeto de Educação de Jovens e Adultos (EJA). A ânsia por aprender inverte algumas lógicas cotidianas. A felicidade está em aprender — e não apenas em se divertir.


E olhe que as aulas do Damião começam à noite, depois de um dia de trabalho. Foi por causa do EJA que ele conseguiu um cargo melhor na empresa onde trabalha. É na sala de aula que ele “não se sente só”. “Os amigos e os professores nos ensinam. Se você tem uma dúvida ou quer conquistar alguma coisa, eles sempre ajudam. E agora é como se fosse o ensino médio, então é mais um sonho que estou realizando”, destaca.


As férias, conta Damião, é um momento complicado para os alunos do EJA. Acomodados à rotina sem o compromisso no terceiro tempo, muitos acabam desistindo de voltar. É preciso resistir e ter foco. “Eu até já renovei minha matrícula para não perder a vaga. Como vai mudar o local das aulas, vou antes para ver o melhor caminho, o mais rápido. Do pouco que eu já sei, vou voltar com vontade de mais”, resume Damião.

 

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De escola nova

Um ano de mudanças. Samuel Peixoto Deslandes, 10, voltará a estudar seis horas depois de chegar do Canadá, onde passou as férias. Será em uma escola nova e, pela primeira vez, em apenas um período do dia. Nervoso? Ansioso, talvez, mas cheio de otimismo. “O novo colégio tem muita coisa, é enorme. Cheio de quadras esportivas, piscinas. Vou me acostumar com a rotina muito facilmente, eu acho”, afirma Samuel.


Mas claro, há a apreensão sobre ser aceito, sobre o novo, sobre o temperamento dos professores. “Estou bem aqui dizendo que vai acontecer o que tiver de acontecer e vai ser tudo bom”, resume. O otimismo vale também para o primeiro dia de aula sem dormir direito. “Vou acordar morto, mas vou tentar me levantar e ir para o colégio”, garante Samuel.


Para a mãe, a educadora física Samara Maia Peixoto Celestino, 32, o momento mexe com toda a casa. Para Samuel, filho de pais separados, as mudanças ocorrem duplamente. “Como ele sempre estudou nos dois horários, fazia as tarefas e se preparava para provas na escola. Agora vai precisar fazer isso em casa, com a gente. Estamos nos esforçando para esse começo”, diz a mãe.

 

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Primeiros passos

Durante as férias, Liz, de 3 anos, não questionava sobre ir à escola. “Ela não perguntou. Eu que resolvi dizer que eram férias e, por isso, podíamos viajar e ir à praia no dia que quiséssemos”, lembra a mãe, a jornalista Amanda Sobreira. A preparação para voltar às aulas começou apenas na noite anterior. Arrumar a mochila, lembrar os nomes de amiguinhos e tias. Pronto, o ano letivo já poderia começar. “No primeiro dia ela estava empolgada, pulou, abraçou as professoras. No segundo já travou um pouquinho, disse que queria ficar em casa”, contou a mãe. O segredo foi destacar as atividades que a Liz gosta e só encontra na escola.

 

As aulas de Liz começaram há duas semanas. Para mãe e filha, estar em uma instituição que dialoga com os valores da família sempre fez o processo escolar ser mais fácil, principalmente na volta das férias. “Esse período da vida dela sempre foi muito tranquilo, por causa da identificação com a escola, do olho no olho com as professoras”, conta.


A segurança construída entre família, aluno e sistema escolar já havia sido testada quando o bolso falou mais alto e Liz passou dois meses em outro colégio. Não deu certo. “Na hora que você tem de colocar o filho na escola não pode ser pela comodidade. A Liz agora está em um ambiente onde ela se sente à vontade, que não tem medo de ficar”.

 

ADRIANO NOGUEIRA

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