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Qual o melhor...?

00:00 | 24/12/2017

No mês passado, algumas publicações internacionais reproduziram um texto da prestigiada Harvard Medical School, intitulado 5 of the best exercises you can ever do. Pelos lados de cá, a tradução recebeu uma vitaminada para impressionar mais e virou Os cinco melhores exercícios, segundo Harvard. Na verdade, estou aproveitando esse gancho para externar meu desconforto com matérias sobre exercícios que, logo no título, incorporam adjetivos como melhor ou “mais alguma coisa”.

Para exemplificar, vou contar um episódio acontecido comigo há alguns anos: uma repórter de uma rede local de televisão me ligou para gravarmos uma matéria sobre exercícios e já me adiantou a pauta:

- Professor, saiu uma pesquisa interessantíssima concluindo (sic) que o squash é o exercício que mais gasta calorias para sua execução. Que tal o senhor comentar sobre isso?

- Moça, antes de lhe responder, gostaria de lhe fazer uma pergunta, posso?

- Claro professor.

- Quem é o melhor jornalista da empresa que você trabalha?

- Como assim?

- Exatamente o que você ouviu: Entre todos os jornalistas que trabalham nessa rede local de televisão, quem é o melhor jornalista?

- DEPENDE... Aqui existem jornalistas que são ótimos repórteres, outros são excelentes editores e há ainda aqueles que redigem muito bem.

- Pois é, a relação entre gasto calórico e exercício também depende de inúmeros fatores como massa muscular envolvida, técnica dos principais gestos esportivos, empenho pessoal durante a partida, tempo de exposição ao esforço, enfim, saber qual exercício gasta mais calorias é o tipo da pergunta que não pode ser respondida de forma definitiva.

Eu até compreendo que em um País tão pouco afeito à leitura, títulos como os “Os cinco mais...”, “O melhor método...”, “As três principais formas de...” e outros na mesma linha enchem os olhos e já levam o pretenso leitor a concluir que o texto já deve conter um apurado das principais pesquisas e opiniões de renomados especialistas, o que quase sempre não é verdade.

Não sou contra títulos chamativos — eu mesmo utilizo dessa estratégia nesta coluna. Mas penso que o uso de adjetivos que remetem à superioridade partem de uma premissa equivocada e, muitas vezes, contaminada por opiniões pessoais e não por evidências reais.

Quanto à publicação de Harvard: 5 of the best exercises you can ever, melhor traduzida como “5 dos melhores exercícios que você pode fazer” (já melhora um pouco), o texto apresenta uma lista com os seguintes exercícios:

1. Tai Chi Chuan: Uma arte marcial de origem oriental que combina movimentos lentos e suaves, sempre acompanhados de concentração na técnica de execução e coordenação com a respiração.

2. Exercícios de Kegel: Uma combinação de exercícios para os músculos profundos que formam o assoalho pélvico que, entre outras funções, contribuem para evitar incontinência urinária.

3. Caminhada

4. Natação

5. Treinamento de força

A lista, apesar de interessante, de forma alguma é definitiva. Nesta mesma coluna nós já discutimos que a decisão por uma determinada forma de exercício depende de muitas questões pessoais como status de saúde, nível de aptidão física e até questões operacionais como tempo disponível e local apropriado.

Tenho certeza que, neste exato momento, alguém está pensando: “Quem o Rossman pensa que é para questionar um texto publicado pela universidade de Harvard”? A questão não é essa. Sempre me preocupo como um conteúdo escrito será interpretado pela maioria dos leitores e creio que simplificar para atrair, pode confundir mais do que explicar. Ademais há tempos que já estou vacinado contra o argumento da autoridade e sou livre para expressar minha opinião.

Adjetivos comparativos como melhor ou pior sugerem a necessidade de informações complementares: Melhor para quê? Melhor para quem? Em que situação? Nesse contexto, minha preocupação é com a informação de qualidade, que possa ser a base de boas decisões em relação aos exercícios físicos. Fiquem atentos, sejam críticos e, na dúvida, consultem profissionais de sua confiança.

Aproveito que este é o último texto de 2017 para agradecer aos meus leitores e pedir para que vocês continuem a enviar críticas, elogios e sugestões a fim de tornar a Wellness a MELHOR coluna sobre estilo de vida do País... Calma! Foi só uma brincadeira.

Feliz Natal e um ano novo repleto de saúde e movimento!